Amílcar Lobo morre no Rio aos 58 anos
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sexta-feira, 22 de agosto de 1997
Agência Folha Rio de Janeiro 
O médico e psicanalista Amílcar Lobo, 58, morreu na manhã de ontem, no Rio, devido a complicações cardíacas. Lobo foi o primeiro médico na América Latina a ser punido por ter participado de atos de tortura. Em 1989, ele teve seu registro como médico cassado pelo CFM (Conselho Federal de Medicina) por seu envolvimento com a tortura, decisão contra a qual recorreu. O recurso ainda tramita no STJ (Superior Tribunal de Justiça). Internado havia 24 dias no hospital da Beneficência Portuguesa (centro do Rio), Lobo teve como causa mortis pneumonia, choque séptico e cardiopatia isquêmica.
Militar, ele serviu de 1970 a 1974 como segundo-tenente médico no quartel da Polícia do Exército na rua Barão de Mesquita (na Tijuca, zona norte do Rio), onde funcionava também o Doi-Codi. De acordo com denúncias de ex-presos políticos, a função de Lobo seria a de examinar os presos para avaliar se poderiam continuar a ser torturados. Lobo nunca admitiu ter participado de sessões de tortura. Admitia ter examinado presos políticos após sessões de tortura, mas não com o objetivo de verificar se poderiam continuar a ser torturados.
O próprio médico contou, em 1986, ter sido uma das últimas pessoas a ver Rubens Paiva ainda com vida, em 1971, no prédio da rua Barão de Mesquita. Na ocasião, ele teria examinado Paiva e constatado uma hemorragia causada pelas torturas. É lamentável que ele tenha morrido sem ter contado tudo o que viu nos porões das prisões políticas, disse a presidente do grupo Tortura Nunca Mais, Cecília Coimbra.
Coimbra foi uma das responsáveis pelas denúncias que levaram Amílcar Lobo a ter seu registro médico cassado pelo CFM em agosto de 1989. Cecília Coimbra foi presa em 1970 e levada para o Doi-Codi. Cheguei encapuzada e a primeira pessoa que vi, ao ter o capuz retirado, foi Amílcar Lobo. Ele me examinou, mediu minha pressão e perguntou se eu tinha algum problema cardíaco. Depois, disse para outra pessoa que eu podia ir. Fui levada para a sala de tortura, contou Cecília.
Com sinceridade, só lamento pelos familiares, que irão sentir sua falta. Mas a morte não diminuiu sua responsabilidade como criminoso. Ele foi um funcionário da equipe de torturadores de presos políticos. Não vou dizer agora, só porque ele morreu, que ele era um anjo, disse Helena Bessermann Vianna.
Afastado da medicina, Lobo passou a sofrer de problemas cardíacos. Depois de morar durante alguns anos em um sítio em Vassouras (a 116km do Rio), Lobo havia voltado a viver no Rio. Há poucos meses havia sido submetido a uma cirurgia para a implantação de pontes de safena. O corpo de Amílcar Lobo será velado no cemitério de São Francisco Xavier (no Caju, zona norte do Rio) até a manhã. Depois, será levado ao crematório do cemitério. A cremação do corpo deverá acontecer segunda-feira às 8h30.


