América Latina mostra maturidade democrática
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sábado, 19 de maio de 2007
Rodrigo Lopes<br> Equipe da Folha 
Curitiba- O cenário político atual da América Latina se parece muito ao de quase 40 anos atrás. Governos que se dizem socialistas, que nacionalizam as principais indústrias e riquezas minerais de seus países e que provocam a desconfiança da grande potência da América do Norte, os Estados Unidos. Existe, no entanto, uma diferença básica: uma certa maturidade democrática (apesar de alguns resquícios de dúvida), que impede a interferência brusca das forças tradicionais da sociedade, personificadas pelos exércitos, responsáveis por golpes de Estado em todo o continente nos anos 1970.
O autor da análise acima fala com conhecimento de causa. Trata-se de José Cademartori, ministro da Economia do Chile durante o governo de Salvador Allende, primeiro socialista a chegar à chefia de um Estado latino-americano por meio das urnas, em 1970. ''Se Allende estivesse vivo, estaria muito feliz ao ver o que está acontecendo na América Latina'', afirma Cademartori, que esteve em Curitiba na semana passada participando do encontro ''Terra e Cidadania'', promovido pelo Instituto de Terras, Cartografia e Geociências (ITCG), ligado à Secretaria de Estado do Meio Ambiente (Sema).
Comandando o grupo Unidad Popular, assim que assumiu o governo, Allende adotou uma série de medidas para socializar a economia do país. Além de implantar um programa de reforma agrária, nacionalizou indústrias e todas as minas de cobre, principal produto mineral chileno. O mesmo que fizeram recentemente Hugo Chávez com o petróleo da Venezuela e Evo Morales com o gás da Bolívia. ''Existem semelhanças e diferenças entre o que foi o governo de Allende e o que estão mostrando esses novos governos'', afirma Cademartori.
A outra semelhança básica, segundo o ex-ministro, é o apoio que estes governos receberam e recebem de parte significativa da população de seus países. ''Esses governos de hoje são governos populares, no sentido em que estão recebendo, assim como o de Allende, um grande apoio dos setores mais modestos da população'', afirma. ''São governos comprometidos em solucionar os grandes problemas que tem a maioria de nossos povos'', acrescenta.
Mas no caso de Allende, o apoio das camadas mais modestas do povo não serviram para sustentá-lo no poder. Em setembro de 1973, as Forças Armadas, comandadas pelo general Augusto Pinochet e contando com apoio dos Estados Unidos, tiram o socialista da chefia do governo e mergulham o país em uma ditadura que durou mais de duas décadas. Quando os golpistas invadiram o ''Palacio de La Moneda'', sede do Executivo chileno, Allende foi morto. Segundo uma das versões, o presidente teria se suicidado, mas há quem ainda sustente que tenha sido assassinado.
Neste ponto, segundo Cademartori, reside a principal diferença entre a América Latina do passado e a do presente. ''Depois da queda de Allende, havia muito ceticismo na América Latina. Sempre se pensava que isso pudesse se repetir e que os exércitos iriam intervir'', declara. Mas em 1999, quando Chávez assume a presidência da Venezuela, o quadro começa a mudar. Em 2002, o polêmico presidente sofre uma tentativa de golpe, mas resiste no poder graças ao apoio popular e de boa parte de seu exército. ''O papel dos exércitos na América Latina mudou'', afirma Cademartori.


