Curitiba- As vitórias inéditas de uma mulher no Chile e de um líder indígena na Bolívia e a postura crítica do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, aos Estados Unidos, são reflexos do descontentamento da população com as reformas neoliberais que vêm sendo implantadas ao longo das últimas décadas.
  A análise é do professor José Alves Donizeth, do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília (UnB). Para o professor, o resultado das urnas traduz o recado do eleitor: as reformas não surtiram o efeito esperado. Privatizações, abertura de mercado, redução do déficit fiscal. São termos que o latino-americano conhece bem, que mudaram sua vida, seus hábitos de compra, seus empregos, os carros que dirigem. Mas nem sempre mudaram para melhor.
  ‘‘O recado das urnas é que há um certo questionamento do papel das elites na América Latina, que vêm perdendo espaço’’, analisa. ‘‘A elite perde prestígio, perde status, após as reformas neoliberais. Por outro lado, os movimentos sociais tendem a se consolidar, lutam pela inserção’’, pondera o professor da UnB. Um exemplo brasileiro está no movimento dos trabalhadores rurais sem-terra (MST).
  Na opinião do professor, a esquerda de hoje é mais pragmática e chega ao poder por critérios democráticos, diferente da década de 60. ‘‘Hoje são esquerdas democráticas, salvo arroubos como os de Hugo Chávez. Salvo isso, são esquerdas para suprir áreas onde o Estado foi ausente’’, observa.
  Com relação ao Brasil, Donizeth afirma que o presidente Lula (PT) não rompeu com as principais características da economia nacional, e no plano econômico até seguiu a cartilha neoliberal. ‘‘Mas investiu no social’’, pondera.
  Seguindo esse raciocínio, o professor avalia que as elites vão perder cada vez mais espaço caso não se aproximem do social. ‘‘Essa tendência vai proliferar’’. Ele lembra que os partidos na América Latina sempre deixaram muito a desejar em termos de coerência e representatividade.
  Dois exemplos da insatisfação da população latino-americana estão na eleição de socialistas. O Chile, um país conservador, colocou no poder uma mulher. Com o slogan ‘‘Por Chile, por la gente’’ (pelo Chile, pelo povo), a ex-líder estudantil e integrante da Juventude Socialista Michelle Bachelet foi eleita presidente do Chile com 53,22% dos votos.
  E a recente eleição de Evo Morales, na Bolívia, aprofundou a tendência esquerdista nas terras latinas. Morales teve o apoio dos presidentes Lula (Brasil), Néstor Kirchner (Argentina), Hugo Chávez (Venezuela) e Tabaré Vázquez (Uruguai), todos de posições esquerdistas. Morales, líder cocalero, conquistou a presidência de seu país com um discurso antiamericano, sem mostrar intimidação em relação ao governo Bush.

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