Ameaças são comuns em Londrina
PUBLICAÇÃO
domingo, 31 de dezembro de 2000
Lúcio Horta De Londrina 
Se em Curitiba o crime organizado chegou ao cúmulo de promover atentados contra o Ministério Público (MP), visando a destruição de provas, em Londrina a situação não é muito diferente. Os promotores responsáveis pela investigação das irregularidades na administração municipal, Bruno Galatti, Cláudio Esteves e Solange Vicentin, já sofreram nos últimos dois anos uma série de ameaças. A maioria chega ao MP via correio. Mas eles evitam comentar números ou o teor da ameaças. Para evitar incidentes como os da Capital, são feitas pelo menos três cópias de cada documento que chega ao MP. O material é guardado em locais seguros e não revelados.
Tanto cuidado não é para menos. As investigações começaram em fevereiro de 99, após denúncia de fraude no serviço de capina e roçagem na Autarquia Municipal do Ambiente (AMA). Em seguida, avançaram para a extinta Comurb (atual CMTU). Ao final deste ano, o balanço dos trabalhos inclui nove ações (sendo sete civis e duas medidas cautelares), envolvendo 117 réus, duas ações criminais e uma série de inquéritos nas políciais Civil e Federal. As ações somam quase R$ 10 milhões mas o desvio comprovado já passou de R$ 16 milhões e novos focos de corrupção ainda estão sendo apurados.
Durante os trabalhos, o MP conseguiu quebrar o sigilo total de mais de 100 pessoas, entre políticos, empresários e laranjas do esquema de corrupção. Os deputados federais José Janene (PPB) e Alex Canziani (PSDB), além de toda a família do prefeito afastado Antonio Belinati (sem partido), não escaparam. Os réus também tiveram os bens bloqueados pela Justiça para eventual ressarcimento dos valores desviados aos cofres públicos. Belinati ainda foi condenado em uma das ações e perdeu seus direitos políticos por oito anos.
Em uma das ações criminais feita pelo MP estadual , foi solicitada a prisão de nove pessoas, entre elas a de Belinati e a do presidente da Sercomtel S/A, Rubens Pavan. O caso ainda está sendo avaliado pela Justiça. Em outra, o juiz da 4ª Vara Criminal de Londrina, Arquelau Araújo Ribas, decretou a prisão preventiva do empresário-doleiro Alberto Youssef, acusado de lavagem de dinheiro público, e mais três pessoas. Depois de duas semanas na cadeia, Youssef foi solto por determinação do Tribunal de Justiça (TJ). Os outros estão foragidos.
O trabalho do MP também provocou uma reação imediata da sociedade, que culminou na criação do Movimento pela Moralização da Administração Pública. O resultado toda população conferiu em junho: pressionada diante de tantas evidências de corrupção, a Câmara acabou cassando o mandato de Belinati (na época no PFL). Meses antes, Belinati tinha maioria folgada no Legislativo.
Para Galatti, que atua há mais de seis anos na Promotoria de Defesa do Patrimônio Público em Londrina, nenhum ano foi tão produtivo como 2000. O ano de 99 foi o do levantamento; e 2000, o da execução. Atacamos os problemas mais graves mas ainda não conseguimos chegar onde queríamos, que é o ressarcimento do dinheiro desviado. Vamos continuar perseguindo esse dinheiro e só vamos poder concluir o trabalho com a apuração de todas as fraudes cometidas na administração pública.
Apesar da intensidade e dos resultados importantes, como os três afastamentos de Belinati pela Justiça, por ação direta do MP, Galatti estima que em 2001 o trabalho será dobrado. Até agora só trabalhamos em cima da AMA e da Comurb. Faltam a Sercomtel, outras autarquias e também a administração central. E aí vamos ver o que vai surgir de novo dentro dessas investigações. É esperar e ver.


