Ameaça, ultimato: a guerra de bastidor
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quarta-feira, 29 de janeiro de 1997
Agência Estado, de Brasília 
Agência EstadoGuerra de nervosO presidente do PMDB, Paes de Andrade, com líderes da oposição na sacada de sua casa: reunião para barrar emenda
Valeu de tudo na guerra para tentar garantir os 308 votos necessários para aprovar a reeleição-já no plenário da Câmara dos Deputados ontem. A mobilização agressiva dos governistas incluiu ameaças de expulsão e de substituição, convocações de titulares para o lugar de aliados doentes e de suplentes rebeldes, ultimatos de ministros, promessas e levantamentos dos cargos federais das bancadas renitentes só para lembrar o preço de uma traição ao governo.
Saia do partido, que assim você não cria problemas e é melhor para todos, sugeriu o líder Inocêncio Oliveira (PFL-PE) ao deputado Ricardo Barros (PFL-PR), que teimava em rejeitar a emenda, porque o governo não aceitara o referendo popular. Mas eu estou no partido há nove anos e quero ficar, contestou Barros. Convite recusado, o líder bateu duro. Prometeu expulsá-lo e articulou uma reunião da Executiva Nacional do PFL para as 14h30 para consumar a punição. A reunião foi cancelada, mas a cabeça do deputado continua a prêmio.
Ausentes dos salões do Congresso por determinação do presidente Fernando Henrique Cardoso, governadores e ministros também agiram duro nos bastidores. O ministro das Comunicações, Sérgio Motta, abusou do telefone. Ontem o prefeito de Rio Branco (AC), Mauri Sérgio, foi surpreendido por uma exigência do ministro: virar o voto de seu vice-deputado, Chicão Brígido (PMDB-AC). Na véspera, ele tentara demover a resistência dos rebeldes do Senado, reunidos para um jantar no apartamento do ex-deputado e prefeito de Contagem, Newton Cardoso (PMDB-MG).
O ministro das
Comunicações
Sérgio Motta abusou
dos telefones
O Serjão nos ofereceu tudo, menos a reeleição, contou o anfitrião a um correligionário. Referiu-se à promessa de apoio à reforma política acertada com o Planalto para atender parte das exigências dos senadores José Sarney (PMDB-AP), Jáder Barbalho (PA), Ronaldo Cunha Lima (PB) e Íris Rezende (GO). Nos comprometemos a aprovar, mais tarde, a fidelidade partidária, o fim dos dois turnos para governadores e prefeitos e até a desincompatibilização, contou um líder governista. Segundo ele, o acerto foi feito para assegurar os votos de Minas Gerais. O Newton Cardoso não tem os 30 votos que alardeia, mas tem os 20 que podem nos derrotar, justificou o líder.
De fato a margem de segurança do governo na votação foi insuficiente até para manter em sua cadeira o ministro dos Assuntos Políticos, Luiz Carlos Santos. Sua presença aqui é constrangedora porque indica que vocês não têm os 308 votos, provocou o deputado José Genoíno (PT-SP). Temos os votos, e assumir a Câmara nunca é uma diminuição, contestou Santos, ao anunciar que voltará a ser ministro depois do primeiro turno da emenda. O vice-líder governista Elton Rohnelt (PFL-RR) tem uma explicação prática: Numa guerra nervosa e dinâmica como essa não se pode brincar; um voto faz diferença.
Os governistas fizeram uma reunião no início da tarde para contar as presenças, os votos e para acertar a estratégia da sessão. Temos 340 votos garantidos a favor do governo e a possibilidade de desistirmos de votar hoje (ontem) é zero, anunciou o líder do governo, Benito Gama (PFL-BA). Mas os líderes aliados também trabalhavam com uma contabilidade mais pessimista, que previa 323 votos a favor da reeleição já, apenas 15 além do mínimo necessário para aprovar a emenda.
O PFL do Maranhão vota com o governo, garantiu o deputado Sarney Filho (PFL-MA). Mas o PMDB do Maranhão está com o presidente Sarney e vai dar três votos contra a reeleição, rebateu seu primo, o deputado Albérico Filho (PMDB-MA). Determinados a garantir o apoio de 50 a 60 peemedebistas, como o líder Michel Temer (SP) prometera ao governo, os governistas do PMDB montaram um quartel general no gabinete do primeiro vice-presidente da Câmara, Ronaldo Perim (PMDB-MG). As reuniões, com grupos de 20 deputados, tomaram o dia inteiro.
Montaram um rolo compressor para converter o PMDB, protestou o deputado Pedro Novaes (PMDB-MA). Segundo o rebelde, no gabinete de Perim não se falou muito em reeleição, mas na candidatura de Temer à presidência da Câmara. Disseram claramente que, ou puxamos o saco do governo, ou o governo romperá o acordo para eleger o Temer.
Até a última hora a oposição estava confiante de que tinha 220 votos, suficientes para obstruir a sessão e impedir a votação. A tática da obstrução das oposições foi acertada para garantir a adesão dos peemedebistas que, mesmo a favor da emenda, se recusavam a aprová-la antes de escolhidos os presidentes da Câmara e Senado. Enquanto eles acertavam a estratégia em café da manhã na casa do presidente do PMDB, deputado Paes de Andrade (CE), o presidente do PDT, ex-governador Leonel Brizola, enviava telegramas a cada um dos 25 pedetistas, ameaçando-os de expulsão caso votassem a favor do governo Fernando Henrique.


