O presidente Fernando Henrique Cardoso acabou adiando a visita que faria hoje a agroindústrias do Movimento dos Sem-Terra (MST) na região de Teodoro Sampaio, no Pontal do Paranapanema (SP). A decisão de adiar a visita, que vinha sendo preparada em sigilo, foi tomada na semana passada, depois que o líder do MST no Pontal, José Rainha Júnior, passou a sofrer pressões do PT para não receber o presidente.
O adiamento foi resolvido num encontro, no Palácio da Alvorada, entre Fernando Henrique, os ministros da Reforma Agrária, Raul Jungmann, da Justiça, Renan Calheiros, e da Casa Civil, Clóvis Carvalho, o presidente do Incra, Milton Seligman, e o coordenador político do comitê da reeleição, Euclides Scalco. A viagem estava sendo anunciada como uma ação do presidente e não do candidato à reeleição. Mas a inclusão na comitiva do governador licenciado Mário Covas, a pedido de Rainha, indicava que a visita teria também um viés eleitoral.
A informação chegou ao comando da campanha do candidato do PT, Luiz Inácio Lula da Silva, que desencadeou uma operação para neutralizar Rainha e impedir a visita, que teria grande potencial político para Fernando Henrique. A reação à aproximação entre o MST do Pontal e o governo foi conduzida no PT pelo deputado Luiz Eduardo Greenhalgh e no MST por João Pedro Stédile, que divide com Rainha a liderança nacional do movimento.
O diálogo entre Rainha e o governo começou a ser construído há pelo menos um ano de um lado pelo sindicalista Tarcísio Tadeu Pereira, da Força Sindical, e de outro por Jungmann e Seligman. Nesse período, os assentamentos financiados pelo Incra no Pontal foram assessorados na busca de soluções técnicas e financeiras que tornaram viáveis os empreendimentos agroindustriais da Cooperativa de Comercialização e Prestação de Serviços dos Assentados da Reforma Agrária do Pontal Ltda. (Cocamp).
No início deste mês, a parceria técnica entre o governo e o MST começou a caminhar para um desfecho político surpreendente: a presença do presidente da República numa região considerada socialmente conflagrada, há quatro anos, que agora abriga um bem-sucedido projeto de assentamento associado a projetos agroindustriais. Há duas semanas, a comissão executiva do MST de Teodoro Sampaio e a comissão estadual do movimento autorizaram Rainha a preparar a visita presidencial.
A notícia provocou a mobilização da campanha de Lula para tentar evitar que a visita rendesse dividendos eleitorais para Fernando Henrique e a divisão política do movimento dos sem-terra adquirisse visibilidade nacional. Mas a reação da esquerda revelou, também, as fragilidades da candidatura de Lula em matéria de articulação política.
Por deliberação do comando da sua campanha, Lula preferiu, por exemplo, participar em julho das manifestações do Grito da Terra em Brasília a ir ao mesmo ato programado para o Assentamento Che Guevara, no Pontal.

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