Os seis acusados de atuar em uma quadrilha para evitar a abertura da Comissão Processante (CP) da Centronic, que acabou culminando com a cassação do mandato do prefeito de Londrina Barbosa Neto (PDT) no último dia 30, sentaram-se ontem no banco dos réus para a primeira audiência do processo. Dez das 11 testemunhas arroladas pelo Ministério Público (MP) foram ouvidas na sessão, que durou quase sete horas e foi aberta aos jornalistas. A audiência das testemunhas de defesa foi marcada para 24 de setembro.
Roberto Coutinho Mendes (ex-presidente da Sercomtel), Alysson Tobias de Carvalho (ex-diretor da telefônica), Marco Cito (ex-secretário de Governo), Rogério Ortega (ex-chefe de Gabinete), o empresário Ludovico Bonato e o vereador Eloir Valença (PHS) não deram entrevista aos jornalistas. ''Só vamos falar ao final do processo, depois que formos ouvidos'', disse Marco Cito.
O vereador Amauri Cardoso (PSDB), que estaria sendo vítima de tentativa de suborno por Bonato, primeiramente, e depois por Cito, reafirmou perante o juiz da 3 Vara Criminal, Katsujo Nakadomari, o que já havia declarado ao Gaeco e à imprensa. Disse que lhe foram oferecidos R$ 80 mil - R$ 40 mil à vista e R$ 40 mil para a campanha - se votasse contra a abertura da CP. Efetivamente recebeu R$ 20 mil de Bonato, em 24 de abril, data em que o empresário foi preso em flagrante. Minutos depois Cito também seria preso, próximo da prefeitura.
Todas as conversas entre o vereador e os interlocutores do governo foram gravadas pelo parlamentar com equipamentos fornecidos pelo Gaeco. Ontem, durante o depoimento, Amauri foi questionado pelos advogados dos réus sobre suas motivações. ''Se fazer a coisa certa dá visibilidade, que todos façam a coisa certa'', rebateu, em entrevista.
O vereador José Roque Neto (PR) pouco acrescentou, restringindo-se a afirmar que nunca soube de qualquer oferta ilícita a vereadores em troca de apoio ao então prefeito. Marcelo Belinati (PP) relatou apenas ter achado estranho uma afirmação de Eloir Valença de que ''não confiava em Joel Garcia (PP)'' para discutir isenção tributária para a Unopar prevista em projeto de lei do Executivo que é alvo de inquérito do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Orgnizado).
Os três policiais do Gaeco que participaram das escutas telefônicas e das prisões dos envolvidos entre 24 de abril e 1º de maio foram arrolados pelo MP. Eles detalharam os procedimentos e explicaram aos advogados que todas as ações foram realizadas tecnicamente, rechaçando insinuações dos advogados de eventuais abusos ou ilegalidades.
O último a depor foi o funcionário do pronto atendimento do banco que funciona dentro da Sercomtel, Felipe. Ele disse que Coutinho lhe solicitou um saque de R$ 5 mil - o que é pouco comum naquela agência - em notas de R$ 100 - e por isso se lembrava do presidente da telefônica. Também garantiu que Alysson o esperava do lado de fora do banco. Em razão disso, o MP sustenta que parte da propina entregue a Amauri Cardoso veio da conta de Coutinho.
Vereador
O irmão de Ludovico Bonato, Sérgio Bonato, e sua esposa Silvana Bonato, que trabalhava no gabinete de Eloir Valença, também prestaram depoimento, mas sem o compromisso de dizer a verdade pelo parentesco com um dos réus. Bastante nervoso, Sérgio foi questionado sobre o telefonema ao irmão, no qual dizia que sua esposa estava ''sem dormir'' por preocupação com o que acontecia no gabinete de Eloir. Ao que Bonato respondeu que todo político tem seu preço.
Sérgio disse que Silvana estava sendo questionada pela comunidade sobre a mudança de postura do vereador, que era oposição ao governo e, sem uma explicação aparante, passou a defender a administração de Barbosa. O irmão de Bonato e Silvana garantiram que nada de ilícito ocorria no gabinete; tratava-se apenas de preocupação com as críticas da comunidade.
O ex-presidente da comissão provisória do PHS Marcos Defreitas também falou sobre a mudança de postura de Eloir. ''Quando ele se filiou ao partido sabia que deveria votar a favor da abertura das investigações, mas não o fez. Não sabemos porquê'', afirmou. Para o advogado de Eloir, a audiência foi positiva. ''Todas as testemunhas demonstraram que não se sustenta a denúncia contra meu cliente'', disse André Cunha.
O promotor Cláudio Esteves, coordenador do Gaeco, limitou-se a dizer que ''no geral, os depoimentos confirmam o que foi coletado na fase de investigação'', sem analisar o mérito das declarações.
Durante a audiência, os advogados pediram o desmembramento do processo em relação a Alysson, Rogério Ortega e Eloir Valença, o que foi negado pelo juiz, após parecer do MP. Os defensores também querem o fim da restrição imposta pelo magistrado para que seus clientes possam ''voltar a exercer funções'' em órgãos públicos. Como medida alternativa à prisão, eles estão proibidos de se aproximar da Câmara e da prefeitura. O juiz deve decidir o pedido nos próximos dias.

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