Em depoimento prestado ontem pela manhã à Polícia Federal (PF) de Londrina, o ex-diretor administrativo-financeiro da extinta Companhia Municipal de Urbanização (Comurb), Eduardo Alonso de Oliveira, negou que tivesse qualquer envolvimento com irregularidades praticadas por integrantes da cúpula da empresa entre 1997 e 1999. Embora não tenha confirmado para qual inquérito tinha sido intimado alegando ''segredo de justiça'' Alonso admitiu que esteve na PF para prestar esclarecimentos sobre uma ação do Ministério Público (MP) que corre em conjunto com investigações da Polícia, das quais ele seria réu.
Pelo menos duas ações do MP de Londrina envolvem diretamente o nome de Alonso. No processo mais conhecido, o ex-diretor da Comurb é investigado por uma suposta participação na contratação irregular de 212 funcionários para a companhia, dos quais 44 trabalhavam para vereadores da última gestão do então prefeito Antônio Casemiro Belinati, entre 1997 e 2000. A outra ação refere-se a um contrato licitatório, também irregular, para a instalação de iluminação no Terminal Urbano Central, o que teria gerado desvio de R$ 58 mil do erário público. Esta ação, inclusive, gerou o bloqueio dos bens do advogado e do ex-presidente da Companhia, Kakunen Kyosen. As duas ações tramitam desde 1998.
Desde o início de julho, mais de 50 pessoas já foram ouvidas pelo MP para prestar esclarecimentos sobre as contratações da Comurb. Alonso, que morava em Ji-Paraná (RO) e só voltou recentemente para Londrina, havia solicitado uma carta precatória para dar depoimento. Na volta à cidade, alegou que ''queria se defender pessoalmente das acusações''.
O depoimento foi colhido pelo delegado Gerson Machado em cerca de três horas. ''Nunca participei de qualquer esquema irregular dentro da Comurb. Só fui intimado porque assinava os cheques e, de certa forma, estava indiretamente envolvido'', disse.
Conforme o delegado, Alonso foi intimado ''há algum tempo'', para prestar esclarecimentos no inquérito 03/04, que apura a movimentação de contas bancárias envolvidas no escândalo AMA/Comurb. ''Estamos apurando fraudes em licitação. Ele (Alonso) veio nos dar o norte, o caminho que percorreu o dinheiro'', explicou, sem dar mais detalhes da investigação, alegando que corre em sigilo. Machado ainda afirmou que até agora não estão sendo apurados crimes de evasão de divisas.
Alonso voltou à mídia na semana passada, quando, em uma entrevista concedida à revista Isto É, denunciou um suposto esquema de ''mensalão'' pagamento de propina em troca de apoio político entre 11 dos então 21 vereadores da gestão Belinati. O principal articulador da mesada, segundo ele, é o deputado federal pelo Partido Progressista (PP) José Janene (PR), para quem o advogado já trabalhou como procurador. ''Rompemos relações em 2000, quando eu tive que pedir para ser convocado pela Comissão Especial de Inquérito (CEI) da AMA-Comurb. Ele me pediu para eu não ir depor, mas eu fui'', explicou. A CEI resultou na cassação de Antônio Belinati.
''Não citamos o nome do deputado no depoimento'', afirmou Alonso, que também não confirmou nem negou as denúncias feitas à Isto É. ''Como diria o Bonilha (Orlando Bonilha, atual presidente da Câmara e vereador na gestão Belinati), é tudo fofoca'', completou. O advogado também confirmou que passou a receber ameaças depois da publicação da entrevista. ''Não vim aqui pedir proteção, pois isso eu já pedi desde 1999. Mas temo, sim, pela minha vida. Eu temo covardes'', concluiu, sem declinar nomes.
Bonilha não foi encontrado pela reportagem da Folha para comentar as declarações de Alonso. Por meio de sua assessoria de imprensa, em Brasília, Janene reiterou a declaração que deu na semana passada, à Folha, de que ''há mais de cinco anos'' não fala com Alonso. (Colaboraram Cristiane Oya e Janaina Garcia)

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