Brasília A propaganda de governo, um dos pilares do primeiro ano de mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, foi montada estrategicamente para atingir duas frentes: o público externo, ao qual é oferecida uma propaganda forte, com linguagem popular, com a versão oficial do fato; e o front interno, onde é ampla a divulgação de versões oficiais otimistas, que ressaltam sempre o aspecto positivo, ainda que não seja o preponderante do fato. E para 2004 a idéia é reforçar essa política, especialmente por se tratar de ano eleitoral.
A propaganda oficial é veiculada maciçamente em sites do governo, da Presidência da República e do PT na internet. Mostra um Brasil diferente do retratado nos jornais e dá espaço para petistas defenderem o governo nos assuntos do dia. O balanço das ações do governo em 2003, divulgado no dia 31, é um exemplo disso.
''Será que a propaganda é capaz de se sobrepor à crueza dos fatos?'', pergunta o deputado Sérgio Miranda (PC do B-MG). ''Será que, se não houver uma reversão na taxa de desemprego, a propaganda vai sustentar sozinha a popularidade do presidente?''.
Resultado do esforço do governo para formar uma opinião coesa sobre as ações do Executivo, o informativo ''Em Questão'', já é chamado nos gabinetes da Esplanada e do Congresso de Pravda, em referência ao jornal usado pela cúpula comunista na ex-União Soviética em defesa de seu governo.
''Em Questão'' é um boletim oficial, produzido pela Secretaria de Comunicação de Governo e Gestão Estratégica da Presidência da República, com a versão e a opinião do governo sobre fatos noticiados pelos jornais, comandada pelo petista Luiz Gushiken, que acompanha a Mídia Impressa, sinopse dos jornais do dia distribuída pela Radiobrás a autoridades do Executivo e a parlamentares. Já é comum, nos bastidores do próprio governo, ouvirem-se ironias do tipo: ''O Pravda hoje está imbatível''.
Contrariado com o modo governamental de informar, o líder do PSDB no Senado, Arthur Virgílio (AM), pediu à Radiobrás que não incluísse o material de ''Em Questão'' em sua Mídia Impressa. ''Não quero receber propaganda do governo'', protestou.
Em versão também eletrônica, onde se deu sua estréia, o informativo, segundo números da Secom, é enviado a 50 mil e-mails no país. O diretor de jornalismo da Radiobrás, José Roberto Garcêz, afirmou que a distribuição do ''Em Questão'' junto com Mídia Impressa é uma forma de ampliar as informações às autoridades. Ele lembrou que a Radiobrás inclui também os jornais da Câmara e do Senado na distribuição diária. Ainda segundo Garcêz, ''o boletim é feito pela Secom e enviado à Radiobrás já impresso e pronto para ser distribuído.''
Na busca por fatos positivos, o ''Em Questão'' fez uma abordagem secundária da reforma da Previdência no dia de sua promulgação pelo Congresso. ''Servidor ganha incentivo para permanecer em atividade'', dizia a manchete do boletim. No lugar de dizer que o governo vai cobrar contribuição dos servidores inativos, o 'Pravda' petista destacava a concessão de um abono para os que reunirem os requisitos para pedir aposentadoria, mas optarem por continuar trabalhando.
Assunto delicado para o PT, que tem no funcionalismo público uma de suas principais bases eleitorais, a reforma da Previdência foi tema de vários boletins. Ora com o presidente Lula falando, ora o ministro Ricardo Berzoini, da Previdência, sempre com o enfoque de que a reforma tem o caráter de justiça social.
No boletim oficial não aparece outro assunto espinhoso para o PT: a meta de superávit primário de 4,25% do Produto Interno Bruto (PIB) no Orçamento de 2004 nem na proposta do Plano Plurianual (PPA). Sobre o primeiro assunto, a versão é ''Área social terá mais recurso em 2004''. Mesmo enfoque sobre a notícia do plano para os próximos três anos de governo: ''PPA realista e com ênfase no social''.
O deputado Roberto Freire (PPS-PE), outro aliado crítico do governo, lembra que o PT sempre se mostrou competente para explorar a propaganda. ''Mesmo na oposição, o PT usava a propaganda para dar uma dimensão maior a seus feitos. Não seria diferente no governo'', pondera Freire. E acrescenta: ''O resultado é que neste primeiro ano, a propaganda foi mais forte, valeu mais do que certos programas, como o Fome Zero, que, apesar da viciada prática assistencialista, conseguiu convencer muita gente de que é um bom programa''.

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