Mais uma vez, estas eleições comprovam uma velha máxima: a de que não existe o impossível na arte da política. Os eleitores mais desatentos são surpreendidos com alianças até então impensáveis. Casos não faltam pelo País. A última novidade veio de São Paulo, onde o deputado federal, José Aristodemo Pinotti, candidato derrotado a vice-governador ao lado de Francisco Rossi, anunciou apoio a candidatura de Paulo Maluf.
Pinotti, um ex-quercista que havia deixado o PMDB há um ano por não aceitar ser da base de sustentação de governo, resolveu dar um giro de 180 graus na sua trajetória política. Saiu do PSB, tradicional partido da esquerda brasileira, para apoiar um dos maiores símbolos da direita no País. O próprio Rossi, que chegou a ser secretário do governo Maluf, é outro exemplo. Foi para oposição ao antigo padrinho político e agora retorna a casa que abandonou, como todo bom filho pródigo.
Mas este não é o único caso. No Distrito Federal aconteceu exatamente o oposto. O deputado federal eleito, Paulo Octávio (PFL), um dos avalistas da Operação Uruguai - feita para justificar sobras da campanha do então presidente Fernando Collor - declarou apoio ao candidato petista, o governador Cristóvam Buarque, pela disputa no segundo turno. ‘‘Desde que seja para colocar mais menino na escola, não quero saber da ideologia das pessoas que me apoiam’’, rebateu Cristóvam, depois de ser criticado por segmentos mais radicais do PT. ‘‘Participo de toda aliança para encontrar alternativas para a crise que beneficie o povo’’, afirmou.
Quando acontece esse tipo de mudança, o patrulhamento ideológico é inevitável. Foi o que aconteceu com o governador eleito de Pernambuco, Jarbas Vasconcelos (PMDB). Durante a campanha, ele era constantemente atacado pelo governador socialista Miguel Arraes e por seu grupo político de ser um ‘‘vira-casaca’’. Isso porque na década de 70, Jarbas era o maior oposicionista ao grupo liderado pelo vice-presidente Marco Maciel (PFL), conquistando espaço político pela virulência dos seus ataques. Há oito anos, na eleição de 1990, Jarbas disputou o governo de Pernambuco.
Novos aliadosFoi a última campanha que ele teve o apoio de Arraes. Na época, Jarbas chegava a chamar o candidato do PFL, Joaquim Francisco, de ‘‘dedo-duro’’. Hoje, ele não só está integrado ao grupo de Marco Maciel, como o apoio do PFL foi fundamental para sua expressiva vitória no último dia 4 de outubro. ‘‘Preocupação ideológica eu não tenho mais nenhuma’’, costuma dizer Jarbas, quando questionado sobre os seus novos aliados.
Para o cientista político David Fleischer, professor da Universidade de Brasília, os interesses na política sempre superam as ideologias. ‘‘O Tancredo Neves costumava dizer que na política não existem inimigos, mas adversários; e nem tão pouco amigos, mas aliados’’, lembra Fleischer. ‘‘E nunca se sabe quando seu aliado vai se tornar adversário’’, conclui o cientista político.
Segundo ele, a prática do ‘‘toma-lá-da-cᒒ sempre foi determinante para a composição de alianças. Como exemplo, ele lembra que nas eleições de 1990, em São Paulo, o PMDB de Orestes Quércia apoiou o então candidato do PT ao Senado, Eduardo Suplicy, para derrotar o comunicador Ferreira Neto, apoiado por Paulo Maluf. Em troca, o candidato peemedebista ao governo de São Paulo, Luiz Antônio Fleury, acabou recebendo o apoio petista no segundo turno.
E exemplo é o que não falta nessas eleições. Em Minas Gerais, ninguém poderia imaginar que um dia o ex-presidente Itamar Franco saísse candidato, tendo como vice o ex-governador Newton Cardoso. Em 1986, Itamar saiu do PMDB, após perder para ‘‘Newtão’’ a indicação do partido para disputar o governo estadual. Resultado: Itamar mudou de legenda, concorreu nas eleições, e acabou perdendo também nas urnas. No Amazonas aconteceu a mesma coisa. O secretário-geral do PSDB, deputado Arthur Virgílio Neto, teve que subir contrariado no palanque da reeleição do governador Amazonino Mendes (PPB). ‘‘O que estava em jogo era uma eleição presidencial’’, argumenta Arthur Virgílio. ‘‘Pagamos alguns preços, mas valeu a vitória’’.
Em praticamente todo Estado, existe um caso. E normalmente, a criatura se volta contra o criador. Quem pensava durante a campanha de 1986, que o então candidato ao governo do Ceará, o jovem empresário Tasso Jereissati, que era apoiado pelo governador Gonzaga Motta, iria 12 anos mais tarde derrotar nas urnas o próprio Motta? Nessas eleições Tasso ficou com mais de 60% dos votos. Gonzaga Motta não chegou aos 20%, encerrando a sua carreira política de forma melancólica.
Outro exemplo vem do Rio de Janeiro. Tanto o ex-prefeito César Maia (PFL) como o governador Marcello Alencar (PSDB), foram crias de Leonel Brizola, e hoje fazem oposição ao criador. Curiosamente, o deputado Miro Texeira (PDT-RJ), que enfrentou Brizola nas urnas em 1982, tornou-se um de seus mais fiéis aliados. Dessa regra, não foge nem a aliança presidencial. Ninguém poderia supor em 1996, que o ex-prefeito Paulo Maluf (PPB) estaria nessas eleições, espalhando out doors por todo Estado, em que sua imagem aparece ao lado do presidente Fernando Henrique Cardoso. São coisas da política.

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