Aliança com Maluf revolta os tucanos
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 10 de novembro de 1997
Agência Estado São Paulo 
A movimentação do presidente Fernando Henrique Cardoso para ampliar o quadro de aliados ao governo federal causou um desgaste tão grande dentro do PSDB de São Paulo que alguns setores do partido decidiram fazer pressão com a ameaça de lançar um outro candidato à presidência da República: o governador Mário Covas. O partido, que em prol das reformas constitucionais e da possibilidade de reeleição de Fernando Henrique digeria até aqui o impacto de atitudes do presidente que vinham na contra-mão do pensamento tucano, decidiu trocar a tolerância pela cobrança de um maior engajamento de FHC com o tucanato paulista.
Na continuidade do descompasso e da ausência de diálogo do PSDB nacional com o estadual, nada impede que setores mais autênticos do partido lancem outro candidato, afirmou o presidente da Assembléia Legislativa, deputado Paulo Kobayashi. Até a noite de ontem, quando houve a renovação do diretório, Kobayashi presidia o PSDB municipal. Fernando Henrique é, em tese, o candidato natural, mas isso não está fechado e podemos lançar outro nome, como o de Covas, acrescentou. Já há setores do partido defendendo essa tese, confirmou o deputado Arnaldo Madeira, segundo vice-presidente nacional do PSDB.
O descontentamento do PSDB paulista com Fernando Henrique agravou-se na quarta-feira passada, quando o presidente prestigiou o ex-prefeito Paulo Maluf (PPB) com um café da manhã na data do leilão da Companhia Paulista de Força e Luz (CPFL), selando a aliança entre o PSDB e o PPB em nível nacional. Na véspera, Maluf havia apregoado o fracasso do leilão. O partido vinha aceitando coisas que não gostava, mas esse encontro foi a gota dágua, analisou Madeira.
Quem cuida da agenda do presidente é ele (FHC), mas nós não entendemos o motivo de tanta conversa com Maluf e em momentos tão impróprios, reagiu o deputado José Aníbal. Não vou julgar o presidente, mas estamos decididos a não mais compartilhar com essa postura e vamos nos manifestar com mais veemência para defender a identidade do partido, que não pode se perder por causa da coligação.
A mágoa do tucanato de São Paulo com Fernando Henrique ficou clara e evidente na convenção municipal do partido, onde a base do PSDB na capital não escondia sua frustração por causa da aliança selada entre o presidente e Maluf, arqui-inimigo do governador Mário Covas. Na frente do diretório, entre frases de apoio a Covas, uma faixa produzida pela juventude do partido se destacava por criticar a atitude do presidente ao encontrar-se com Maluf na semana passada: Coligação com M...não! Fernando: volta pro ninho!, dizia a faixa.
Não dá para aceitar a aproximação com Maluf, que tem a vida cercada de escândalos, ainda mais quando isso prejudica o governador Mário Covas, ponderou o conselheiro nacional da juventude do PSDB, Luiz Galini. Fernando Henrique não está exatamente fora do ninho, mas poderia estar mais articulado com o partido. A juventude, que não quer que São Paulo sirva de bode expiatório do pepebista Paulo Maluf, tentou marcar audiência com o presidente para discutir o assunto, mas não conseguiu.
Hoje à tarde a executiva regional do PSDB reúne-se para discutir e elaborar uma nota oficial contra a aliança de FHC com Maluf. Não dá mais para ficarmos subjugados à vontade do presidente, avaliou o presidente regional do PSDB, deputado Clóvis Volpi. O documento será encaminhado ao Palácio do Planalto.
Essa aliança com Maluf diferencia o PSDB de São Paulo do pensamento do presidente Fernando Henrique e une o partido ao conceito político do governador, comentou Volpi. Está na hora do presidente parar, porque a base está magoada e repudia essa aliança porque sabe que o PSDB é um partido 100% contrário a Maluf, aconselhou.
Há um momento de turbulência nas relações do partido com o presidente, disse Aníbal. Na quarta-feira, a executiva nacional irá reunir-se com Fernando Henrique para retratar o clima em São Paulo. O presidente está pensando o País e tentanto consolidar a candidatura à reeleição, mas no caso de Maluf fez na forma e momento delicado; pode não ter avaliado corretamente a reação do partido, analisou Madeira.


