A ausência do ministro Sérgio Motta no governo acende uma disputa acirrada entre os aliados políticos do presidente Fernando Henrique Cardoso para ocupar os espaços que o tucano deixou abertos na campanha à reeleição e num eventual segundo mandato. Com a morte do amigo Serjão, o presidente terá de procurar substitutos para atuar na linha de frente do programa de privatização, na articulação política do governo, na coordenação da campanha e ainda na trincheira: Motta era um aguerrido defensor de Fernando Henrique e de seu governo.
‘‘O presidente tem uma macrovisão e vai procurar, com os quadros disponíveis, preencher o espaço deixado por Serjão’’, afirmou o ministro dos Transportes, Eliseu Padilha (PMDB), ele próprio um candidato a fazer o papel de interlocutor político do governo na base aliada, desempenhado com eficiência por Serjão. Ao lado de Motta e do ex-ministro de Assuntos Políticos Luiz Carlos Santos (PFL), Padilha já vinha ajudando na articulação do governo, especialmente dentro de seu complicado PMDB. Tanto que já está com o mapa de votação da reforma da Previdência sobre a mesa, contabilizando os votos do governo.
Embora o ministro Padilha, por sua lealdade, tenha conquistado aos poucos a confiança do presidente, ele não tem a intimidade que Serjão cultivou com o amigo de juventude Fernando Henrique. ‘‘Além de amigo, Serjão foi o ministro mais solidário ao presidente e o mais devotado ao projeto do governo’’, avaliou o deputado Roberto Brant (PSDB-MG). ‘‘Serjão é insubstituível, primeiro pela amizade com Fernando Henrique, segundo pelo seu estilo, ao mesmo tempo obstinado, guerreiro e afetivo com as pessoas’’, emendou Luiz Carlos Santos, o ex-companheiro de articulação das reformas.
Santos deixou o Ministério da Articulação Política, mas o PFL não desistiu da vaga atribuída ao partido dentro do governo e brigou para emplacar mais um de seus nomes na reforma ministerial. Tudo para atender as reivindicações internas, mas também de olho num gabinete vizinho ao do presidente da República num momento em que seu principal operador já estava fora de combate, por causa da doença. ‘‘Ele vai fazer muita falta ao PSDB; o PFL tem sua interlocução direta com o presidente da República’’, resumiu o presidente do partido, Jorge Bornhausen (SC).
A oposição reconhece que os tucanos têm razões de sobra para lamentar a perda de Sérgio Motta. ‘‘Apesar das nossas diferenças, o Serjão sempre foi visto como uma liderança forte no governo e marcante na história do Pais’’, afirmou o deputado José Genoíno (PT-SP). ‘‘Era um adversário respeitável’’, concluiu. O mérito de Sérgio Motta frente ao seu maior feito administrativo - a privatização das telecomunicações - é lembrado até pelos opositores do programa. ‘‘Através dos leilões públicos, ele conseguiu fazer a privatização sem que houvesse qualquer suspeita sobre a lisura do processo’’, completou o deputado Miro Teixeira (PDT-RJ).
A ida de parlamentares ao velório do ministro das Comunicações, Sérgio Motta, e o feriado de hoje, dia do inconfidente mineiro Joaquim José da Silva Xavier, o ‘‘Tiradentes’’, esvaziaram as atividades do Congresso e dificilmente haverá quórum esta semana para votar matérias importantes. Apenas seis senadores e 27 deputados compareceram às sessões plenárias de ontem, encerradas no início da tarde.
O presidente do Senado, Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA), decide amanhã se convoca ou não o Congresso para votar, no dia seguinte, as 11 medidas provisórias (MPs) que impedem a promulgação da reforma administrativa.

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