Albuquerque pede demissão da Saúde
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sexta-feira, 20 de março de 1998
Agência Folha 
Arquivo FolhaBem passadoAlbuquerque: fritado durante duas semanas, tem apoio de 950 prefeitos mas não o de Fernando HenriqueO ministro da Saúde, Carlos Albuquerque, pediu demissão ontem em carta entregue ao presidente Fernando Henrique Cardoso. FHC não disse se aceita ou não e pediu ao ministro que espere até segunda-feira. Motivo: até o momento do encontro no Palácio da Alvorada, o senador José Serra (PSDB-SP) não havia respondido ao convite de FHC para assumir. Serra ainda estava indeciso. O convite foi tornado público há duas semanas, período que durou a fritura de Albuquerque.
Apesar de confirmar a intenção de substituir o ministro, FHC foi surpreendido ontem pelo pedido de audiência de Albuquerque. O ministro também não esperava que o presidente lhe pedisse tempo para decidir seu destino. Ao deixar o Alvorada, Albuquerque estava arrasado, segundo relato de amigos. Ele esperava sair fortalecido do encontro com o presidente.
A reação de FHC tornou praticamente inviável sua permanência no governo. Um dia antes de pedir demissão, Albuquerque reunira um inédito apoio político à sua administração. Recebera em seu gabinete manifestos em defesa de sua permanência no cargo assinados por mais de uma centena de deputados da base governista, liderados pelo PSDB - partido do presidente, de Albuquerque e de Serra.
Na ocasião, o ministro mostrou disposição de permanecer no cargo. E atacou, indiretamente, seus críticos: Humildade não é fraqueza; trabalhar quieto não é sinônimo de incompetência. De fato, este ministério e a saúde não devem ter arautos nem precisam de fogos de artifício. Já tivemos muito isso. Saúde é ação, e é difícil assobiar e tocar flauta ao mesmo tempo. Albuquerque parecia estimulado também pelo apoio manifestado por 950 prefeitos, que foram na quarta-feira ao Planalto receber o certificado de habilitação do PAB (Piso de Atenção Básica), sua principal marca no ministério.
O desgaste do ministro era bem mais antigo. Além da pouca visibilidade de sua administração, Albuquerque havia entrado em confronto com o Planalto ao defender o veto ao projeto que obriga a rede pública a realizar abortos nos casos previstos em lei - risco de vida para a mãe ou estupro. No balanço que fez de sua gestão na véspera da demissão, Albuquerque insistiu em que os resultados positivos logo apareceriam. Ele citou duas tarefas não concluídas: a regulamentação dos planos de saúde e a definição de uma fonte permanente de financiamento dos gastos do setor.
Encontrar o substituto da CPMF (imposto dos cheques) será a tarefa mais urgente que o ministro da Saúde terá pela frente. Como a cobrança da contribuição termina no final do ano e a campanha eleitoral vai esvaziar o Congresso a partir de junho, é curto o prazo que o governo tem para encontrar uma fórmula alternativa.
O senador José Serra estava desde ontem à noite em São Paulo. Ao deixar Brasília, Serra disse que não havia se decidido e continuava pensando na proposta.


