São Paulo - Os deputados das alas radicais do PT só têm a perder se insistirem em travar uma queda de braço com o governo e a direção do partido, na avaliação do cientista político Fernando Abrúcio, da Fundação Getúlio Vargas. Ainda que tenham talento para fazer muito barulho com suas críticas, esses deputados são vozes isoladas na base do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no Congresso. E correm o risco de cair no ostracismo político, caso sejam expulsos ou optem por sair do PT. ''Lula domina 90% do partido'', contabiliza o cientista político. ''Em termos de jogo político, os deputados da esquerda petista terão dificuldades para ganhar espaço.''
Ressaltando que as divergências em início de mandato já são tradição nos governos subnacionais petistas, Abrúcio prevê que o limite para o movimento rebelde será a primeira votação importante no Congresso. ''O governo não deve mudar sua agenda e quando uma matéria importante, como a autonomia do Banco Central, chegar ao Congresso, vai cobrar fidelidade partidária'', afirma. ''Se Lula for obrigado a pedir unidade partidária aos radicais, eles não se sustentarão no partido.''
Abrúcio lembra que há precedentes de expulsão no PT justamente nas alas moderadas. Casos como o da deputada Luiza Erundina, que em 1993 assumiu a Secretaria da Administração no governo Itamar Franco, contrariando a orientação do partido, e foi punida com suspensão. ''É curioso que nenhum deputado radical, naquela época, tenha saído em defesa de Erundina em nome do debate interno, como eles dizem'', observa Abrúcio. ''Por isso, as últimas atitudes desse grupo parecem oportunismo político.''
Numa semana recheada de boatos sobre a formação de um novo partido de esquerda - que abrigaria os dissidentes petistas e o PSTU -, os deputados radicais frisavam a todo momento que não têm a intenção de deixar o PT. Abrúcio, no entanto, diz que a questão principal não é saber se tais deputados querem permanecer no PT, mas se o PT os quer. ''Se continuarem com suas críticas públicas ao governo, os deputados radicais vão ser punidos. E quem perde dentro do partido e não aceita a derrota é expulso do PT.''
Nesse contexto, o cientista político prevê um futuro pouco glorioso para os eventuais dissidentes petistas. ''São nomes que tiveram chances eleitorais enquanto estavam colados ao PT. Uma vez fora dele, estarão perdidos politicamente'', avalia. ''Poderiam ir para o PSTU, mas seria um fiasco.''
E as chances não aumentam nem na hipótese de o governo Lula se mostrar desastroso. ''Para ficar constatado que o governo deu errado é preciso um tempo de 2 anos, 2 anos e meio. E a estratégia dos radicais, que já rompeu a barreira da civilidade política, não aguentará por muito tempo. O ultimato para eles virá muito antes.''
Em última análise, Abrúcio ressalta que as declarações furiosas dos radicais podem até mesmo ajudar o governo e a consolidação de alguns líderes -como o ministro da Fazenda, Antônio Palocci, e o líder do governo no Congresso, senador Aloizio Mercadante. ''Parece até um teatro, onde os radicais criticam para que alguém do governo, como Palocci e Mercadante, responda. Com isso, os líderes do governo vão se credenciando, junto à sociedade e ao mercado financeiro.''

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