Curitiba - Depoimentos prestados ontem à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que investiga os conflitos agrários e as invasões de terra no Paraná revelaram ligações íntimas entre autoridades governamentais e lideranças do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Os agropecuaristas Pedro Paulo Pamplona e Paulo Cléve do Bonfim, que têm propriedades em Áreas de Preservação Ambiental (APAs) de Antonina, no litoral paranaense, apresentaram documentos que comprovariam omissão de autoridades policiais em furto e roubo de equipamentos das fazendas São Judas Tadeu e Agropecuária Marcosanto.
Um dos documentos mais graves apresentados foi uma declaração de um oficial de Justiça feita no dia 17 de abril de 2004 nos autos da ação de reintegração de posse movida por Pamplona contra os integrantes do MST que entraram na propriedade dele no dia 31 de março deste ano. O oficial foi para a Fazenda São Judas Tadeu para cumprir um mandado de busca e apreensão num barracão de uma fazenda próxima ao de Pamplona onde estariam guardados equipamentos roubados do fazendeiro durante o período de ocupação. Ele teria sido impedido pelos integrantes do MST.
O oficial teria pedido reforço da PM, o que teria sido imediatamente concedido pelo juízo de Antonina. Policiais militares seguiram para a propriedade e depois de muita negociação, conseguiram passar pela área e chegar a estrada que daria acesso ao barracão. A ponte de acesso estava completamente bloqueada por um bloquete de concreto que impedia a passagem. Os sem-terra não quiseram liberar a área e garantiram que tinham conversado com o secretário de Estado de Segurança Pública, Luiz Fernando Delazari, segundo relato do oficial de Justiça, que teria dado prazo de cinco dias para que o material furtado fosse entregue.
Com o mandado de busca e apreensão, o oficial teria seguido a ordem judicial para chegar até o barracão e apreender tudo o que estivesse dentro do local. Os policiais teriam retirado os arames para chegar até a ponte quando teriam sido surpreendidos a pedradas pelos sem-terra. Eles teriam revidado com tiros de borracha. Na mata foi encontrado um veículo escondido. No barracão vários pertences de Pamplona. Integrantes do MST faziam a guarda do local. No relato, o oficial de Justiça diz ainda que além dos objetos havia carne estocada (cerca de 400 quilos) em tambores. Tudo foi filmado pela PM. Como não tinha como retirar tudo, por causa do volume, alguns policiais ficaram fazendo guarda no local para que o oficial cumprisse o mandado de busca e apreensão no dia seguinte.
No outro dia, segundo o relato que está anexado nos autos, a PM teria voltado ao local com efetivo para retirada dos objetos. O oficial de Justiça relatou que, no meio da operação, o tenente Stocco (que era comandante da PM de Antonina) teria recebido uma ligação de superiores ordenando que a operação fosse cancelada. O material furtado não poderia ser retirado do local. ''Não sabemos a razão do comando da PM ter resolvido desacatar a lei e a Justiça e cancelar a operação. Não sei o que isso representa. Quem impede a Justiça é considerado como cúmplice'', complementa o oficial de Justiça.
O comandante Stocco foi afastado do cargo e transferido para Paranaguá. Ele teve que responder Inquérito Policial Militar (IPM) por ter tentado cumprir a determinação judicial. ''Isso é o fim. É desobediência. É um absurdo. O Judiciário é o fiel da Justiça. Alguma autoridade estadual é cúmplice no furto qualificado'', afirmou o delegado Mário Sérgio Bradock (PMDB), relator da CPI da Terra. Os deputados vão mandar toda a documentação para o Ministério Público estadual e federal. ''Esse é o mais grave depoimento que já ouvimos. Me preocupa muito o relato do oficial sobre a comunicação formal para que a operação fosse suspensa'', complementou o deputado estadual Tadeu Veneri (PT).

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