Agentes vigiavam Jânio Quadros e Lacerda
PUBLICAÇÃO
sábado, 25 de abril de 1998
Edson Luiz e Marcelo de Moraes Agência Estado 
Arquivo FolhaJânio Quadros: militares, temendo um contragolpe, mantinham agentes seguindo todos os passos do ex-presidenteNovos documentos encontrados nos arquivos secretos do Ministério da Justiça provam que o ex-presidente Jânio Quadros e o ex-governador do antigo Estado da Guanabara Carlos Lacerda foram sistematicamente vigiados e seguidos por agentes do governo militar. Ambos tinham sido cassados e setores do governo chegaram a temer que Lacerda pudesse estar participando de um movimento de contragolpe contra a Revolução. Até hoje, não havia a certeza de que os dois políticos tinham sido realmente espionados pelo governo. Pelos documentos, a espionagem sobre esses políticos foi feita pelo menos de 1968 a 1974. O arquivo secreto está guardado no Arquivo Nacional, no Rio de Janeiro.
O primeiro documento é um telex, datado de 1 de agosto de 1968, enviado pelo general José Bretas Cupertino, diretor geral do Departamento de Polícia Federal, ao Ministério da Justiça. O material, levantado pelo serviço de informações da PF, descreve detalhadamente cada passo dado pelo ex-presidente Jânio Quadros durante uma viagem para Mato Grosso. O documento informa o resumo das atividades do senhor Jânio Quadros ontem 31 de julho.
O material fornece cada passo dado por Jânio naquele dia. 18h10 - saiu em companhia do senador Lino de Matos e alguns deputados, dirigindo-se à Praça da Independência. Várias fotografias e populares curiosos, etc. Da Praça da Independência para a casa do Doutor Mojica e de lá para a churrascaria Rodeio, até às 22h30. Regressou ao hotel e ainda saiu às 22h45 pela rua 15, dirigindo-se à casa da viúva de um seu ex-ministro. Às 23h35 regressou ao hotel. Aí, às 24h, um grupo de jornalistas ainda permanecia no hotel. Entre eles, dois dialogavam em voz baixa, admitiam a chegada de Carlos Lacerda à Corumbá para prestar solidariedade a J.Q. (Jânio Quadros).
No final desse informe existe, justamente a preocupação de que Lacerda e o ex-presidente Juscelino Kubitschek se juntassem a Jânio Quadros nesse encontro em Corumbá, no Mato Grosso. Avolumam-se as notícias de que o senhor Carlos Lacerda irá à Corumbá/MT manter ligações com o senhor Jânio Quadros. Consta ainda que também o senhor Juscelino Kubitschek no próximo domingo irá a Corumbá com o mesmo fim, informa o documento.
No dia 6 de agosto, outro telex enviado pelo general José Bretas Cupertino, continua informando o ministro da Justiça (na época, o professor Luiz Antônio da Gama e Silva) sobre cada passo de Jânio. Senhor Jânio Quadros recebeu ontem durante o dia a visita dos senhores Luiz Mangelico Filho, Coronel aviador Adoni Sotavia, José Felipe Duarte e do padre Benjamin Pablo em seus aposentos.
À noite, foi jantar na residência do senhor Mojica juntamente com os senhores Verdazio, Vitor Eugênio, Hugo Pereira de Souza (vulgo Cachimbo) e o coronel Adoni, todos acompanhados das esposas. Na saída do jantar, o senhor Jânio sai abraçado com o coronel Adoni, tendo então sido tiradas várias fotos dos mesmos. Ao regressar ao hotel, antes de recolher-se, palestrou no hall com o ex-deputado Francisco de Barros, informa o relatório.
Em outro documento, setores do governo chegaram a imaginar que Carlos Lacerda pudesse estar preparando uma espécie de contrarevolução que o levaria à Presidência da República no lugar dos militares. Em 27 de maio de 1974, a Divisão de Segurança e Informações do Ministério da Justiça (DSI) recebeu um informe do do Centro de Informações e Segurança da Aeronáutica (CISA) falando sobre as atividades de Lacerda.
Informes - O relato confidencial afirma que desde o final de 1972 vêm se registrando informes procedentes de várias fontes dizendo respeito à atividades políticas de Carlos Lacerda, acobertadas como atividades empresariais do grupo Novo Rio, diz o documento. O documento dá conta de que em Goiânia/GO, Lacerda vem mantendo contato com Lisandro Vieira da Paixão, cassado pelo AI-1 e amigo de João Goulart, desde outubro de 1972. Este possui uma empresa de crédito, associada ao grupo Novo Rio.
Pelo informe, em março de 1974, Carlos Lacerda esteve em Goiânia, hospedado numa chácara localizada no bairro Jardim América, de propriedade de Farra Ibrain Sunen. Em sua companhia, consta ter estado um cidadão de nome Hugo, que dizia ser capitão de mar e guerra (informe possivelmente verdadeiro, de fonte razoavelmente idônea).
Além disso, pelo documento, em 20 de janeiro de 1973, Rodolfo Fernandes de Carvalho, militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB), declarou que Lacerda teria enviado uma pessoa de sua confiança para residir na região de Trombas e Campinasul/GO, com o objetivo de organizar um movimento de posseiros naquela área. O enviado de Lacerda seria ligado ao PCB (informe que não pode ser averiguado).


