Paulo Ubiratan
De Londrina
Cínico ou sincero? ‘‘O Agente’’, como permitiu ser identificado, é um ex-tenente do Exército que pertenceu às forças de repressão, em Brasília, durante o regime militar. Ele, que mora em Londrina, nega que tenha torturado alguém, mas diz sem constrangimento que investigou e prendeu muitos ‘‘subversivos’’ entre 1973 e 1975, período no qual foram mortos Rubens Paiva e Wladmir Herzog. Segundo conta, ele participou de mais de 100 missões, todas com o objetivo de investigar ou prender. ‘‘Cumpri missões em todo o Brasil. Devo ter prendido umas 50 pessoas’’, revela o agente. Ontem, o País lembrou a assinatura dos 20 anos da lei que instituiu a Anistia. ‘‘A gente tinha de ter antes de tudo espírito patriótico. Com este espírito, fazíamos qualquer trabalho, com consciência de defender a Pátria contra o inimigo’’, afirmou o agente. A seguir, os principais trechos da entrevista:
FolhaComo era o seu trabalho de agente especial do Exército?
O AgenteParticipei de mais de 100 missões, entre investigações e prisões. A mais terrível foi no Mato Grosso, quando estouramos uma casa onde havia crianças entre os adultos subversivos. Foram horas de expectativa até termos a oportunidade de pegar somente os adultos, atirando de fora para dentro da casa. Nenhuma criança morreu.
FolhaO senhor chegou a matar alguém?
A.Na guerra a gente não contabiliza isso. Sinceramente, eu não sei se matei, pois sempre trabalhávamos em grupo de no mínimo dez companheiros e todos atiravam juntos quando era preciso.
FolhaO senhor atuou em todo o Brasil?
A.Cumpri missões em todo o País. Não havia fronteiras para entrar em ação. Devo ter prendido umas 50 pessoas.
FolhaO senhor pertenceu à equipe de tortura?
A.Não torturei ninguém, somente prendi.
FolhaO senhor sabia que a maioria das pessoas que eram presas era torturada?
A.Eu sabia, pois na guerra sempre acontece isso. Somente usando determinadas formas é que determinadas pessoas colaboram. É a guerra.
FolhaNestas horas eram esquecidos todos os princípios morais?
A.Nestas horas não existem direitos morais nem humanos. Vou repetir, é a guerra. Vale tudo para quem está dentro dela. Não me arrependo de nada que fiz durante aquela época.
FolhaDiante da situação de guerra o senhor não acha que ambos os lados deveriam abrir concessões?
A.Não existe concessão quando se está em luta. Se abrir um pouquinho, o outro lado toma conta. Repare as invasões que estão fazendo em Brasília. Falta pulso forte para acabar com esta esculhambação.
FolhaQuais eram os quesitos básicos para a pessoa pertencer à força de elite do Exército?
A.áA coisa era complicada. A gente tinha que ter antes de tudo um espírito patriótico, amar muito o Brasil. Com este espírito você fazia qualquer trabalho, pois tinha a plena consciência de que estava defendendo a Pátria contra o inimigo.
FolhaQual era a capacidade de vocês avaliarem o ‘‘inimigo’’, quando os dois lados em luta eram formados por brasileiros? O que era ser inimigo?
A.Inimigo era todo aquele que tentasse derrubar os princípios básicos da Revolução (de 64). Na época vivíamos sob a égide de um sistema de exceção que deveria ser mantido a todo custo. A revolução foi feita para defender o Brasil do tacão comunista que queria tomar conta de nossas instituições. Quem era contra, era inimigo.
FolhaO senhor foi a favor da Anistia?
A.Sou. Acho que dependendo do erro praticado, a pessoa tem o direito de ser perdoada. Em determinados casos os acusados deveriam morrer na prisão. Quem assaltou banco, quem participou da luta armada e matou não deveria gozar de privilégios iguais aos que não cometeram crimes pesados.

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