Brasília - Após seis meses de mandato, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) começa a enfrentar os primeiros sinais de desgaste e o cotidiano do Palácio do Planalto passa a ser dominado por uma agenda de crise. Ainda às voltas com o agravamento do conflito agrário e a repercussão negativa do encontro camarada de Lula com os dirigentes do Movimento dos Sem-terra (MST), o governo agora enfrenta a ameaça de uma greve dos servidores públicos federais, marcada para terça-feira.
O presidente e auxiliares próximos perceberam que um espectro ronda o Planalto e se armam para enfrentar a nova onda de cobranças e críticas. No esforço de coordenação mais eficaz, os ministros José Dirceu (Casa Civil) e Luiz Gushiken (Comunicação de Governo) estão reforçando a cobrança aos ministros. ''Os ministros têm de cuidar dos problemas de suas áreas e não levá-los ao presidente'' tem sido uma cobrança quase diária dos dois. Ao presidente, insistem, cabe anunciar as notícias boas e não as ruins.
Embora considerada natural a esta altura do mandato, a primeira queda de popularidade de Lula, em pesquisa Ibope/CNI divulgada na semana passada de 75% em março para 70% em junho , também chegou num momento ruim, de certa fragilidade do governo. E que pode piorar. O receio de auxiliares é com o tamanho do estrago que o tratamento amigável dado ao MST produzirá na imagem do presidente.
Além dos problemas com os sem-terra e servidores, preocupam o governo as inquietações no Congresso, com as CPIs do Banestado e do MST ameaçando a tranquilidade desejada para a votação das reformas. Ainda tem lugar de destaque na pauta de desgastes a disputa judicial em torno do reajuste das tarifas telefônicas. Mais que uma briga entre consumidores e a Agência Nacional de Telecomunicações, estão expostas as divergências, no mínimo conceituais, entre ministros.
Para tentar conter a agenda de crise, o Planalto está providenciando ações concretas. O líder do governo no Senado, Aloizio Mercadante (PT-SP), recebeu a missão de tentar evitar ou pelo menos mudar o foco da CPI do MST, criada por requerimento do líder tucano, Arthur Virgílio (AM). A ele e outros líderes governistas também cabe evitar que a CPI do Banestado vire um grande barril de pólvora.
É evidente, diz Mercadante, que a agenda política do momento provoca tensão e sobressaltos, mas o governo está longe, muito longe de viver o pior dos mundos. ''Faz parte do processo democrático. Sempre teremos desafios e conflitos sociais, constitucionais, administrativos e parlamentares'', afirma. ''Mas no momento temos a vantagem de vivermos um cenário econômico favorável. Isso nos dá tranquilidade para uma administração mais efetiva de outras dificuldades.''
Desempenho Ao mesmo tempo em que tentam administrar a agenda de crise, ministros próximos de Lula buscam solução para um problema de gerenciamento interno. Concluíram que muitos ministros não estão dando conta de suas funções.
A área de reforma agrária é um exemplo. Era para tudo ser resolvido pelo ministro Miguel Rossetto (Desenvolvimento Agrário), que conversa todo dia com líderes do MST e outras entidades. Mas ele não conseguiu avançar, e Lula já havia nomeado Dirceu e o secretário-geral da Presidência, Luiz Dulci, para ajudá-lo. Ainda assim não se livrou do desgaste causado pelo encontro com o MST. Ficou claro, diz um integrante do ''núcleo duro do poder'', que Lula não está protegido. ''A blindagem que os ministros deveriam dar ao presidente não existiu nesse caso dos sem-terra.''
A avaliação é de que Lula deve se distanciar de temas polêmicos. Deixar para ele resolver os conflitos no campo é o mesmo que deixá-lo cuidar de uma greve nas universidades; ou de querer ele mesmo baixar a inflação, sem uma política econômica específica; ou de ter de resolver os problemas das favelas.
O líder do governo na Câmara, Aldo Rebelo (PC do B-SP), diz que a agenda de crise não se está impondo agora, pois sempre existiu. ''Numa sociedade tão cheia de desequilíbrios e deformações você tem de enfrentar o desafio de fazer os ajustes a partir do governo, que nem sempre terá posições monolíticas'', diz, acrescentando que a diversidade de opiniões também sempre vai existir. ''O que é preciso é ter um senso de direção, porque se a diversidade prevalece, o governo fracassa.''

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