Afinal, o que foram as Jornadas de Junho?
As grandes manifestações populares que completam uma década neste mês ainda desafiam o mundo intelectual e a sabedoria popular
PUBLICAÇÃO
sábado, 17 de junho de 2023
As grandes manifestações populares que completam uma década neste mês ainda desafiam o mundo intelectual e a sabedoria popular
Lúcio Flávio Moura - Especial para a Folha 
Poucos eventos políticos podem ser considerados tão enigmáticos como as Jornadas de Junho. E a busca por respostas simples pode frustrar os preguiçosos. Em qualquer pesquisa rápida no Google, as opiniões são tão difusas quanto as bandeiras abstratas que tremulavam na mente das multidões.

O certo é que o tempo tem mudado a percepção sobre aquelas ruas épicas de 10 anos atrás. A cada ano de acontecimentos somado, uma camada nova é acrescentada ao debate. Somente este ano, quatro livros foram lançados sobre a fúria que varreu o Brasil no terceiro ano do primeiro governo da presidente Dilma: “Uma Crise chamada Brasil: a quebra da Nova República e a erupção da extrema direita”, do jornalista Conrado Corsalette; “Treze – A política de rua de Lula a Dilma”, da socióloga Angela Alonso; “A verdade vos libertará”, da fotojornalista Gabriela Biló; e “A Razão dos Centavos: crise urbana, vida democrática e as revoltas de 2013”, do urbanista Roberto Andrés.
A DIREITA VAI ÀS RUAS
A busca por profundidade é a única saída segura para saciar as curiosidades mais genuínas, defendem os intelectuais. A Folha escalou dois professores universitários, dois doutores em Filosofia para tentar contribuir neste esforço de tradução daquela onda nacional que também quebrou em Londrina em pelo menos duas oportunidades na segunda quinzena de junho de 2013.
“Na minha perspectiva, o Brasil fez parte de um ciclo de revoltas democráticas de caráter global, como a Primavera Árabe, o Occupy Wall Street, o Movimento M15. São movimentos relacionados ao fato de que a democracia não entrega o que promete e também ao fim do ciclo de prosperidade econômica que acaba com a Crise de 2008, um colapso do modelo de excesso de produção e de pouca distribuição. As pessoas queriam um estado mais eficiente e havia uma crise no sistema político naquele momento”, explica Clodomiro Bannwart Júnior.
“Não podemos esquecer que estávamos no final do primeiro governo Dilma e como todo governo longevo sempre ocorre desgaste. E todo movimento de rua tende a provocar prejuízo para quem está no poder. O governo até tentou agir para evitar o desgaste. É verdade que conseguiu ganhar a eleição de 2014, não sem algum estrago”, pondera Elve Cenci.
“O movimento proporcionou duas saídas. A saída à esquerda gerou a ocupação das escolas em 2016. Hoje temos deputados que surgiram naquele movimento. Mas o efeito mais importante ocorreu à direita. Até 2013 todo o embate político ocorria entre PT e PSDB. Portanto, a disputa eleitoral dava-se entre a esquerda e o centro. As manifestações de rua, pelo menos desde a redemocratização, sempre foram prerrogativa da esquerda, sindicatos e movimentos sociais. Após 2013, a direita saiu às ruas”, analisa Cenci.
Bannwart lembra que os dois governos Lula do início do século desenharam um formato bastante estável para o presidencialismo de coalizão. Para ele, uma década inteira de irrelevância da oposição fez surgir um sistema político blindado e que girava em falso, sem participação social. “Isso fez emergir uma repulsa ao sistema político num primeiro momento e, depois, um descontentamento com o próprio sistema democrático”, explica Bannwart.
“Em termos políticos, 2013 culminou na eleição do Bolsonaro e no fortalecimento de uma nova direita organizada, atuante e hoje predominante no Congresso. Também fez ressurgir uma extrema direita com pautas antidemocráticas que, imaginava-se, estivessem sepultadas após a Constituição de 1988”, avalia Cenci.
NÃO PASSOU
Bannwart defende que as Jornadas de Junho ainda não foram superadas. “São dez anos de crise econômica, social e institucional, permanente instabilidade política e ataques constantes a democracia“. Ele é influenciado pela perspectiva do filósofo e cientista social Marcos Nobre, um dos maiores pensadores da atualidade.
Em sua obra “Limites da Democracia: de junho de 2013 ao governo Bolsonaro”, Nobre usa uma frase de efeito para explicar o que está no nosso retrovisor: “Junho ficou para trás, mas não passou”.
Em 2018, em uma reportagem especial da revista Galileu, o sociólogo Ruy Braga já dizia que “o que prevaleceu de Junho de 2013 é um tipo de narrativa bem ilusória e reacionária”. O jornalista Bruno Torturra, um dos idealizadores do Mídia Ninja, coletivo que publicava vídeos ao vivo dos protestos no Facebook, disse naquele mesmo ano para o site Nexo que “tive a impressão de que muitos que estavam ali se odiavam, mas ainda não tinham descoberto isso. Foi uma reunião de forças que nunca mais estiveram juntas”. Para ele, “no fundo, as jornadas criaram um certo trauma, pois foi uma energia que não realizou”.


