Vinte dias após a prisão do ex-presidente do Banco Central Francisco Lopes pela CPI dos Bancos, seus advogados preparam em silêncio a reação ao que qualificam como ‘‘uma série de ilegalidades’’ e montam a estratégia de defesa do economista em inquérito aberto pelo MP. Lopes foi liberado após pagamento de fiança, horas depois de ser detido. O processo, contaram José Gerardo Grossi e Luís Guilherme Vieira, está parados e ‘‘ninguém sabe onde vai dar’’.
Os advogados prevêem que dentro de 15 dias deverão sair do atual estágio de silêncio, intitulado por eles de ‘‘jiboiando’’, para retomar as ações com que esperam ‘‘restabelecer os direitos’’ do economista. Segundo eles, está mantida a decisão de manter silêncio, estendida principalmente a Lopes. ‘‘Ele não tem nada a dizer agora’’, frisou Vieira. Os advogados informam que o ex-presidente do Banco Central retornou ao Rio de Janeiro e tem permanecido em sua residência.
Lopes fora orientado a deixar o Rio, para evitar o assédio insistente da imprensa. ‘‘Agora não tem problema’’. Ele tem mantido poucos contatos, contou o advogado, que não inclui nenhum colega de governo. ‘‘Que eu saiba ele não foi procurado por ninguém’’. Grossi e Vieira são categóricos ao defender que a imagem do ex-presidente do BC não sai arranhada desse episódio.
Considerado economista brilhante, respeitado pelo mercado e por seu pares - eles frisam - Lopes continua sendo um homem ‘‘honrado’’ e que merece respeito. Este é um dos motivos, na sua avaliação, para que o ex-presidente do BC não venha a público explicar a história do bilhete encontrado na casa de Sérgio Bragança, seu ex-sócio na Macrométrica, em que dá à esposa de Lopes posse de um depósito de US$ 1,6 milhão no exterior. ‘‘E como é que ele está?’’, perguntamos. ‘‘Ele é um homem juntando seus cacos’’, mostra o advogado, com um movimento de mãos.
São vários os episódios produzidos pela CPI que ainda intrigam os dois advogados. Entre eles, destaca-se o envio de um ofício datado do dia 24 de abril, em que o presidente interino da CPI, senador José Roberto Arruda (PSDB-DF), os informa que o ex-presidente do BC está proibido de deixar o País. ‘‘Nunca pensei que seria melhor tratado na delegacia de Polícia do que no Congresso Nacional’’, disse Luiz Guilherme Vieira, que foi expulso do plenário da comissão no dia do depoimento de Lopes.
Ao contrário do que se imaginava, os advogados revelaram não ter acreditado que a recusa de Francisco Lopes em assinar o termo de compromisso antes do depoimento pudesse levar à sua prisão. ‘‘Nós não acreditávamos que aquela situação patética iria acontecer’’, garantiu Vieira. Naquela noite, o economista foi alertado pelos senadores de que, sem assinar o termo de compromisso, não poderia ser inquirido.
Embora seja um procedimento de praxe no caso de detenções feitas pela PF, o ‘‘constrangimento’’ poderia ter sido evitado se o ex-presidente do BC assinasse um termo, afirmando não ter sofrido nenhuma agressão ou constrangimento durante a operação. Essa hipótese, disse Vieira, sequer foi colocada. Segundo o advogado, isso ocorreu por causa dos ‘‘holofotes’’ oferecidos pela cobertura da imprensa ao caso. ‘‘Não seria mais saboroso manter um ex-presidente do Banco central preso por alguns dias?’’.
Vieira também criticou o comportamento de membros do Ministério Público Federal no Rio na condução do caso, principalmente a operação de busca no apartamento de Lopes. ‘‘Após a Constituição Federal de 1988, o Ministério Público passou a produzir inquérito como se fosse tira’’, disse.
Os advogados também minimizaram a importância do bilhete manuscrito encontrado na casa de Salvatore Cacciola, ex-controlador do Banco Marka, endereçado ao ex-presidente do BC. Vieira afirmou que a interpretação do bilhete deve ter sido feita ‘‘por um estrábico’’. ‘‘Com base nesse bilhete, chegou-se à casa do Lopes no curioso dia em que ele estava em Brasília prestando depoimento no Banco Central, no qual também estavam dois procuradores’’, lembrou.

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