‘‘Ele pode ter um conhecimento privilegiado dos fatos. Logo, suas declarações são extremamente valiosas’’, avalia o promotor Claudio Esteves

Considerado nos bastidores uma espécie de ''arquivo vivo'' do Legislativo londrinense, o vereador cassado Orlando Bonilha (PR) definiu ontem - como antecipara a FOLHA, na edição de domingo - que deve se apresentar hoje à Justiça. A informação foi reforçada pelo advogado do ex-parlamentar, Ronaldo Neves, segundo o qual, após contato telefônico mantido de manhã, com o cliente, ''há 80% de chances'' de ele deixar nesta tarde a situação de foragido que perdura desde 21 de maio. Naquele dia, após se ausentar a uma audiência na 5 Vara Criminal e não ser localizado para receber a intimação, Bonilha teve a prisão preventiva decretada pela juíza Fabiana Ayres Bressan, porque estaria dificultando a instrução do processo no qual é acusado de cobrar R$ 12 mil de propina do empresário Nelson Dequêch, em 2004.
Ontem, o MP admitiu que pode solicitar a revogação da prisão preventiva caso o foragido de fato se apresente e aceite colaborar nas investigações. A possibilidade de eventual delação premiada já havia sido aventada pelo advogado no último sábado, após a votação unânime (18 a zero) da sessão especial que cassou o mandato do vereador e suspendeu os efeitos da renúncia que apresentara no dia 20 de março.
De acordo com a legislação, a delação premiada pode trazer benefícios que vão da redução da pena ao perdão judicial, dependendo do caso e do tipo de auxílio prestado para elucidação dos crimes sob investigação. De acordo com o coordenador do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), Cláudio Esteves, por exemplo, uma das colaborações que poderiam ser trazidas por Bonilha é o alcance de ''eventuais personagens ocultos'' nas investigações nas quais ele figurou. Desde a prisão do ex-vereador Henrique Barros (sem partido) com R$ 9,9 mil supostamente oriundos de propina, em janeiro passado, o ex-vereador já responde a pelo menos dez ações cíveis e criminais na Justiça que abrangem desde acusações de apropriação indébita de parte de salário de assessores a formação de quadrilha em suposto esquema de cobrança e distribuição de propina cobrada de empresários beneficiados com projetos de lei.
Conforme o promotor, o Gaeco tem convicção de que Bonilha pode se tornar um colaborador em potencial. ''Porque ele pode ter um conhecimento privilegiado dos fatos. Logo, suas declarações são extremamente valiosas até no sentido de nos ajudar a alcançar eventuais personagens ocultos'', ponderou.
Segundo Esteves, porém, eventual intermediação da Promotoria à Justiça criminal, em prol de um possível pedido de liberdade provisória, ''dependerá da efetiva colaboração do ex-vereador no contexto das investigações''. ''Estamos dispostos a ajudá-lo com o início de um processo de delação premiada. Em casos de crime contra a administração pública, o maior benefício pode advir da obtenção de provas como pessoas que participaram de esquemas, e a recuperação de recursos que tenham sido obtidos criminosamente'', avaliou.
O advogado de Bonilha disse ter conversado ontem de manhã por telefone com o cliente, que estaria no estado de São Paulo. ''De zero a dez, as chances de ele se entregar são oito'', garantiu.

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