O endosso dado pelo presidente Bill Clinton ao Mercosul não significa que as negociações para a criação da Alca se tornem mais fáceis daqui para a frente. Nas reuniões ocorridas em Brasília na semana passada, nem Brasil nem Estados Unidos abriram mão das posições que vêm mantendo sempre que discutem o assunto. O Brasil, que defende proposta em comum com o Mercosul, não aceita iniciar o processo de redução de tarifas comerciais antes de 2005, para que a indústria nacional tenha tempo de melhorar sua eficiência e enfrentar o aumento da competição que virá com a abertura dos mercados.
Os EUA têm pressa. Querem antecipar a vigência dos acordos setoriais cujas negociações forem concluídas mais cedo, sem esperar a data final estabelecida na Cúpula de Miami, de dezembro de 1994, que lançou a proposta da Alca. Na quarta-feira, ao discursar para empresários, em São Paulo, Clinton ressaltou o trecho da Carta de Miami, assinada por 34 chefes de Estado, que prevê a obtenção de ‘‘progressos substanciais’’ na virada do século no processo de liberalização comercial.
Os EUA, assinalou, continuam empenhados nesse objetivo. Segundo Botafogo Gonçalves, Clinton tem uma forte razão política para insistir na antecipação de resultados. A proposta de fast track, ou via rápida, a autorização especial para firmar acordos comerciais que ele solicitou ao congresso americano pouco antes de iniciar sua viagem à América do Sul, dá ao executivo um prazo inicial até 2001 para negociar tais acordos. A permissão poderá ser renovada até 2005, se o governo demonstrar ao congresso que os acordos firmados até aquela data tiverem sido benéficos para as empresas americanas.
Essa foi a forma encontrada pela Casa Branca para tentar vencer a resistência manifesta do Congresso a conceder o fast track, que impede os parlamentares de emendar os tratados que forem negociados pelo governo durante o período de autorização especial. Para o Brasil, segundo Botafogo Gonçalves, nada muda. ‘‘Esse é um problema interno dos Estados Unidos’’, disse.
Para o embaixador, o primeiro teste para saber se as conversas da semana passada levaram a uma mudança de postura dos norte-americanos nas negociações da Alca será no próximo dia 27. Nessa data, os vice-ministros de comércio dos 34 países que poderão formar a Alca se encontrarão na Costa Rica para mais uma reunião preparatória da Cúpula das Américas, marcada para abril de 1988, em Santiago, no Chile.
Nos próximos meses, os EUA terão também de demonstrar se a promessa de rever as barreiras não-tarifárias a produtos brasileiros como aço e suco de laranja vai se traduzir em medidas concretas. A mesma promessa foi feita em abril de 1995, durante a visita do presidente Fernando Henrique Cardoso aos EUA, sem que tenha havido nenhuma mudança. ‘‘Agora houve uma escalada política’’, disse Botafogo Gonçalves.

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