São Paulo - Embora não fale em tomada do poder, a lista de direitos reivindicados pelo movimento assemelha-se ao programa de um partido. Envolve políticas de redistribuição de renda, questões ambientais, científicas e educacionais, debates sobre gênero, relações comerciais com outros países. Reflete, enfim, o ponto de vista do grupo sobre a organização política e social do País.
Por causa disso, há vozes dentro e fora do MST que defendem sua organização como partido, à semelhança do Partido Verde, que surgiu de um movimento voltado para questões ambientais.
Os organizadores do recém-estruturado P-Sol, que abriga dissidentes do PT, até convidaram o MST para uma aliança. Apesar da proximidade com a senadora Heloísa Helena (AL), que frequentemente se manifesta a favor dos sem-terra, o convite não foi aceito. Diante disso, o novo partido voltou-se para o MTL que já teve afinidades com o PSTU e é mais radical que o MST.
As possibilidades de o MST se transformar em partido são remotas, de acordo com dois pesquisadores de questões agrárias que apóiam a organização e participam de seus debates. ''Há pessoas que torcem para que o MST se transforme em partido político, porque isso o enfraqueceria'', diz o geógrafo Bernardo Mançano Fernandes, do Núcleo de Estudos de Reforma Agrária (Nera), da Unesp. ''Perderia a agilidade de movimento social e não poderia ocupar as terras.''
O geógrafo Ariovaldo Umbelino de Oliveira, da USP, que também desenvolve estudos sobre a reforma agrária, define o MST como ''um movimento social com uma prática política de massas''. Isso significa que só funciona num processo de permanente consulta às bases, que decidem os rumos. Não daria certo no formato de partido tradicional.
''Isso deixa as elites furiosas, porque no Brasil nunca enfrentaram uma política com ação de massas'', diz o professor da USP. ''O que mais se aproximou disso foi o PT, no início de sua história.''
Os vínculos entre o MST e o PT sempre foram fortes. Essa fidelidade, porém, tende a balançar diante da possibilidade de não cumprimento das metas de reforma agrária.
Até agora, porém, o MST evita ataques diretos ao governo. Há quem acredite que o MST silencie porque seus acampamentos e assentamentos têm sido beneficiados com políticas de ação social do governo. Na última edição da ''Revista Sem Terra'', o sociólogo Francisco de Oliveira disse: ''O movimento está sendo manobrado pelo governo. Os financiamentos para a reforma, em doses homeopáticas, mantêm o MST sob tensão.'' (R.A.)

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