ACM vira principal articulador de FHC
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segunda-feira, 23 de novembro de 1998
Doca de Oliveira Agência Estado 
Enquanto os políticos tucanos se esforçam como nunca para segurar o ministro das Comunicações, Luiz Carlos Mendonça de Barros, no cargo que exerce e refrear o desgaste provocado pela eclosão de escândalos envolvendo grampo e dossiês nas últimas semanas, o presidente do Senado, Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA), emerge como o mais importante e eficiente articulador político do presidente Fernando Henrique Cardoso.
Nos últimos dias, quando não atuou diretamente para suavizar dificuldades, o velho cacique baiano mostrou ao governo o caminho das pedras para reduzir o desgaste provocado pelas denúncias que ocupam a mídia há cerca de 15 dias. Em todos os casos recentes em que o presidente Fernando Henrique esteve numa situação delicada, Magalhães tem sido o primeiro a socorrê-lo.
Desde que o deputado Luiz Eduardo Magalhães (filho de ACM) morreu, o senador tem sido o principal aliado do presidente, comenta um influente assessor do presidente. É cada vez mais comum encontrar o pefelista nas dependências do Palácio da Alvorada, a residência oficial de Fernando Henrique e Dona Ruth Cardoso, ou no quarto andar do Palácio do Planalto, onde o presidente despacha. Com a morte do filho e do ex-ministro Sérgio Motta, operador político atuante como um trator e amigo de todas as horas, o senador baiano ocupou os espaços vazios e transformou-se no mais influente conselheiro político de Fernando Henrique.
A avaliação feita no Palácio do Planalto é que o caso das chantagens que atentaram contra o presidente Fernando Henrique só não ganhou dimensão graças ao providencial e estratégico silêncio do senador baiano. Desde que a imprensa passou a divulgar os fatos associados ao denominado Dossiê Cayman - documentos que comprovariam uma suposta sociedade entre Fernando Henrique e outros políticos integrantes do alto tucanato brasileiro em uma empresa nas Ilhas Cayman - o presidente do Senado tem falado o mínimo necessário. E quando faz algum comentário, mesmo que negativo, vem usando um tom quase diplomático. Fato que está chamando a atenção dos seus interlocutores mais próximos.
Além de ter se calado, Antonio Carlos Magalhães tem colocado à disposição do governo toda a sua experiência e traquejo político. De sua atuação direta resultou, por exemplo, a reação contundente de Fernando Henrique Cardoso no Rio de Janeiro há uma semana, que exigiu respeito à sua pessoa, cortando a abordagem do assunto Cayman através dos jornalistas. A seus interlocutores mais próximos, Magalhães comentou que o presidente teria de reagir.
A coisa está complicada e o bandido pode virar herói, justificou o cacique baiano, referindo-se ao crescimento das denúncias. Com esse monte de documento falso, o presidente pode ser colocado em risco. Na véspera da viagem do presidente ao Rio de Janeiro, ele formalizou a orientação: Ele (ACM) pediu ao presidente que não arredasse o pé e reafirmasse sua autoridade, conta um político com trânsito livre pelo Planalto.
O presidente do Senado também já tinha abortado a instalação de uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) para investigar o Dossiê Cayman, que chegou a ser defendida pelo ministro da Saúde, José Serra. Segundo interlocutores, Antonio Carlos Magalhães chegou a ficar irritado ao ler nos jornais as declaradas intenções de Serra, enquanto ele movimentava-se nos bastidores, fazendo um grande esforço para abafar o caso no Congresso. Se o Serra continuar dando uma de bom moço pedindo uma CPI, enquanto lutamos pelo interesse do governo, o Antônio Carlos será o primeiro a defender uma CPI, chegou a ameaçar na ocasião um dos senadores que lhe é mais próximo.
O que mais irritou o presidente do Senado foi o fato de que, enquanto ele arcava com o ônus de ter que abortar uma CPI, o ministro José Serra fazia média com a opinião pública. Mesmo discordando do ministro nos bastidores, Magalhães não partiu para o ataque, numa atitude estratégica. Em público, afirmou que não se faria uma CPI para investigar documentos falsos. A declaração do Serra pedindo uma CPI foi muito ruim, confirmou um político carlista. Há distonia entre o Serra e o Congresso, acrescentou, referindo-se ao delicado relacionamento do ministro da Saúde com o Parlamento. O Antonio Carlos às vezes se irrita e não tem simpatia por ele também, afirmou. Na intimidade, ele não gosta de nenhum deles, emendou, com relação aos respectivos titulares da Saúde e das Comunicações do governo Fernando Henrique.


