Enquanto os políticos tucanos se esforçam como nunca para segurar o ministro das Comunicações, Luiz Carlos Mendonça de Barros, no cargo que exerce e refrear o desgaste provocado pela eclosão de escândalos envolvendo grampo e dossiês nas últimas semanas, o presidente do Senado, Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA), emerge como o mais importante e eficiente articulador político do presidente Fernando Henrique Cardoso.
Nos últimos dias, quando não atuou diretamente para suavizar dificuldades, o velho cacique baiano mostrou ao governo o caminho das pedras para reduzir o desgaste provocado pelas denúncias que ocupam a mídia há cerca de 15 dias. Em todos os casos recentes em que o presidente Fernando Henrique esteve numa situação delicada, Magalhães tem sido o primeiro a socorrê-lo.
‘‘Desde que o deputado Luiz Eduardo Magalhães (filho de ACM) morreu, o senador tem sido o principal aliado do presidente’’, comenta um influente assessor do presidente. É cada vez mais comum encontrar o pefelista nas dependências do Palácio da Alvorada, a residência oficial de Fernando Henrique e Dona Ruth Cardoso, ou no quarto andar do Palácio do Planalto, onde o presidente despacha. Com a morte do filho e do ex-ministro Sérgio Motta, operador político atuante como um trator e amigo de todas as horas, o senador baiano ocupou os espaços vazios e transformou-se no mais influente conselheiro político de Fernando Henrique.
A avaliação feita no Palácio do Planalto é que o caso das chantagens que atentaram contra o presidente Fernando Henrique só não ganhou dimensão graças ao providencial e estratégico silêncio do senador baiano. Desde que a imprensa passou a divulgar os fatos associados ao denominado Dossiê Cayman - documentos que comprovariam uma suposta sociedade entre Fernando Henrique e outros políticos integrantes do alto tucanato brasileiro em uma empresa nas Ilhas Cayman - o presidente do Senado tem falado o mínimo necessário. E quando faz algum comentário, mesmo que negativo, vem usando um tom quase diplomático. Fato que está chamando a atenção dos seus interlocutores mais próximos.
Além de ter se calado, Antonio Carlos Magalhães tem colocado à disposição do governo toda a sua experiência e traquejo político. De sua atuação direta resultou, por exemplo, a reação contundente de Fernando Henrique Cardoso no Rio de Janeiro há uma semana, que exigiu respeito à sua pessoa, cortando a abordagem do assunto Cayman através dos jornalistas. A seus interlocutores mais próximos, Magalhães comentou que o presidente ‘‘teria’’ de reagir.
‘‘A coisa está complicada e o bandido pode virar herói’’, justificou o cacique baiano, referindo-se ao crescimento das denúncias. ‘‘Com esse monte de documento falso, o presidente pode ser colocado em risco’’. Na véspera da viagem do presidente ao Rio de Janeiro, ele formalizou a orientação: ‘‘Ele (ACM) pediu ao presidente que não arredasse o pé e reafirmasse sua autoridade’’, conta um político com trânsito livre pelo Planalto.
O presidente do Senado também já tinha abortado a instalação de uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) para investigar o Dossiê Cayman, que chegou a ser defendida pelo ministro da Saúde, José Serra. Segundo interlocutores, Antonio Carlos Magalhães chegou a ficar irritado ao ler nos jornais as declaradas intenções de Serra, enquanto ele movimentava-se nos bastidores, fazendo um grande esforço para abafar o caso no Congresso. ‘‘Se o Serra continuar dando uma de bom moço pedindo uma CPI, enquanto lutamos pelo interesse do governo, o Antônio Carlos será o primeiro a defender uma CPI’’, chegou a ameaçar na ocasião um dos senadores que lhe é mais próximo.
O que mais irritou o presidente do Senado foi o fato de que, enquanto ele arcava com o ônus de ter que abortar uma CPI, o ministro José Serra fazia média com a opinião pública. Mesmo discordando do ministro nos bastidores, Magalhães não partiu para o ataque, numa atitude estratégica. Em público, afirmou que não se faria uma CPI para investigar ‘‘documentos falsos’’. ‘‘A declaração do Serra pedindo uma CPI foi muito ruim’’, confirmou um político carlista. ‘‘Há distonia entre o Serra e o Congresso’’, acrescentou, referindo-se ao delicado relacionamento do ministro da Saúde com o Parlamento. ‘‘O Antonio Carlos às vezes se irrita e não tem simpatia por ele também’’, afirmou. ‘‘Na intimidade, ele não gosta de nenhum deles’’, emendou, com relação aos respectivos titulares da Saúde e das Comunicações do governo Fernando Henrique.

mockup