O ex-senador Antonio Carlos Magalhães (PFL), de 73 anos, renunciou ontem ao seu mandato com um discurso agressivo e cheio de mágoas em relação ao governo e aos colegas. Ele foi especialmente incisivo em relação ao presidente Fernando Henrique Cardoso e insinuou que poderá ser candidato à sua sucessão, afirmando: ‘‘Retornar à Bahia é recuperar ânimo e forças para voltar, em breve, a esta Casa. Ou além dela.’’
Ao seu principal adversário no Senado, Jader Barbalho (PMDB-PA), que presidia a sessão, ACM dirigiu gestos, olhares e acusações cheias de ironia. Disse que não iria se submeter ao julgamento da Mesa para não depender de um ‘‘voto de minerva’’ do oponente ou ‘‘de sua benesse para continuar senador’’.
Ao final de uma hora e cinco minutos de pronunciamento, ACM chorou ao se referir ao filho Luís Eduardo Magalhães, que morreu em abril de 98. ‘‘A vida que me resta, e que lhe faltou tão cedo, só tem sentido se eu continuar radicalizando cada vez mais na direção do que é correto’’, afirmou. Seu filho mais velho e suplente, Antonio Carlos Magalhães Júnior, sentado ao lado de Eduardo Suplicy (PT-SP), também chorou.
Os 73 senadores presentes ouviram o discurso calados. Ninguém fez apartes. Entre os que assistiram à sessão, os principais alvos foram Ramez Tebet (PMDB-MS) – a quem ACM chamou de ‘‘rábula do Pantanal travestido de bacharel’’ – e Saturnino Braga (PSB-RJ), que classificou como o ‘‘pior prefeito de toda a história do Rio de Janeiro’’. Antes, lembrou que ele (ACM) foi considerado em Salvador o ‘‘prefeito do século’’.
Tebet e Saturnino são, respectivamente, o presidente e o relator do Conselho de Ética, que pediu abertura de processo de cassação contra o senador baiano, por envolvimento na violação do painel eletrônico do Senado. Diante dos ataques, os que demonstravam incômodo foram Heloísa Helena (PT-AL) e Roberto Freire (PPS-PE). ‘‘Que autoridade moral tem esse homem?’’, disse Freire, dando um murro na bancada.
Ao contrário do que fez com o ex-senador José Roberto Arruda, que renunciou na semana passada, Jader não acompanhou ACM até a saída. Suspendeu a sessão por cinco minutos para que o baiano recebesse os cumprimentos e designou o vice-presidente da Casa, Edison Lobão (PFL-MA), para representar a Mesa na despedida.
ACM desceu da tribuna aplaudido por pefelistas e por parlamentares de outros partidos, como Roberto Requião (PMDB-PR) e Fernando Bezerra (PTB-RN). Ao deixar o plenário acompanhado por um séquito de pefelistas, ACM recebeu vários cumprimentos, mas rejeitou pelo menos um: do líder do governo no Congresso, deputado Arthur Virgílio (PSDB-AM), a quem afastou com o braço.
Horas antes de renunciar ao seu mandato no Senado, ACM já havia atacado o Fernando Henrique ao admitir, em entrevista ao programa ‘‘Bom Dia Brasil’’, da TV Globo, que o presidente teve conhecimento da lista de votação da cassação do mandato de Luiz Estevão. ‘‘Evidente que ele tenha conhecimento da lista por dois motivos: primeiro acredito que o Arruda tenha mostrado a ele (FHC) e em segundo lugar ele (FHC) conversou com várias pessoas, inclusive comigo, sobre problemas de pessoas que teriam ou não votado naquela cassação.’’

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