''ACM é trombone isolado da orquestra''
O presidente Fernando Henrique Cardoso respondeu ontem às acusações do ex-presidente do Senado Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA). Num discurso duro, durante o lançamento do plano de ação dos seus dois últimos anos de mandato, desqualificou o senador baiano e avisou ao PFL que não aceitará o apoio de partidos aliados à criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para apurar as acusações de ACM.
Fazer CPI pra quê? Pra apurar o que já se apurou, fazer barulho e criar instabilidade?, questionou Fernando Henrique em um pronunciamento de quase 40 minutos. Isso é deslealdade. Em entrevista concedida após a apresentação do plano, ele continuou no ataque. Quem é de partido aliado, mas independente, que vá ficar independente em casa, recomendou, momentos depois de a executiva nacional do PFL ratificar a posição de independência declarada pelo político baiano. O ACM é igual ao Requião, um trombone isolado na orquestra, atacou o presidente, referindo-se a Roberto Requião (PMDB-PR), político conhecido pelo discurso mordaz e por ser voz distoante em seu partido. Os que se advogam moralistas são ditadores disfarçados, acrescentou.
Estamos limpando o entulho do passado, disse Fernando Henrique, sobre os resquícios da ditadura militar. Ao limpar, não se pode confundir quem está limpando com o lixo, o lixeiro não é o lixo, frisou. Lembrando a trajetória de Mário Covas e do PSDB, o presidente associou o senador baiano à ditadura e disse ter as mãos limpas. Numa crítica velada a ACM, Fernando Henrique usou termos como bufão, fanfarrão em linguagem popular, e Tartufo, personagem de MoliSre, novelista e escritor francês considerado pai do teatro moderno, cuja personalidade era a de um homem hipócrita.
FHC evitou opinar sobre o caso Banpará, mas não defendeu o presidente do Senado, Jader Barbalho (PMDB-PA), das acusações de ter desviado recursos do banco. Essa não é uma questão de governo, desconversou Fernando Henrique. É uma questão que, se houver, é burocrática ou dos tribunais, não tem nada a ver com o governo.
O presidente não adiantou os nomes dos novos ministros da Previdência e das Minas e Energia, cujos titulares foram demitidos em retaliação a ACM. Pode ser hoje, amanhã, na semana que vem, avisou, negando-se a dizer quando anunciará os nomes. Isso é prerrogativa exclusiva minha e vou exercê-la, disse, frisando que não pretende criar o Ministério do Desenvolvimento Urbano, pasta que seria criada para acomodar aliados que viessem a perder espaço na disputa pelo comando das Casas do Congresso. Mesma posição ele já havia destacado na carta que enviou aos presidentes dos cinco partidos aliados apresentando seu plano de ação. No documento, Fernando Henrique cobrou lealdade ao governo e liberdade para escolher seus colaboradores.
A reação do presidente aos ataques de ACM vinha sendo planejada desde o último domingo. Durante o final de semana, Fernando Henrique chegou a discutir o assunto com um pequeno grupo de colaboradores e decidiu que daria uma resposta pessoalmente ao ex-aliado. Até então, a defesa do governo e da figura do presidente fora atribuída às lideranças do governo no Congresso e ministros políticos, o que não foi suficiente para calar o senador baiano. Não dá mais, reclamou Fernando Henrique. Na opinião do presidente, segundo relato de colaboradores, a situação havia chegado ao insustentável e era necessário reagir.
Finalmente, a adrenalina subiu à cabeça do presidente, disse um ministro, na segunda-feira. Inicialmente, Fernando Henrique pretendiar apresentar seu plano de ação na terça-feira e aproveitar a ocasião para dar seu recado. A morte de Mário Covas, entretanto, suspendeu sua agenda temporariamente. O presidente foi a São Paulo para o velório e o sepultamento do amigo, voltando ainda mais firme na decisão de não ouvir calado a nova onda de ataques. Há momentos em que é preciso dizer como se está vendo as coisas, justificou-se.





