A Associação Paranaense do Ministério Público (APMP) afirmou ontem que o acidente de trânsito envolvendo a promotora de Justiça, Leila Schimiti, ocorrido no sábado, foi um "fato isolado e de índole particular", sem qualquer interferência nas investigações conduzidas em Londrina. Leila, que atuou nas operações Voldemort e Publicano 1 e 2, foi levada à delegacia e, segundo boletim de ocorrência (BO), apresentava sinais de embriaguez quando colidiu o seu carro contra duas picapes. Segundo a APMP, a tentativa de atingir o trabalho da instituição a partir do acidente de trânsito com Leila, reflete "manifestações com evidentes interesses espúrios".
A promotora emitiu nota um dia após o acidente e pediu desculpas a todos os envolvidos e à sociedade em razão do "lamentável evento". "Na oportunidade, me submeti às medidas determinadas pelas autoridades e assim será em relação às demais consequências legais advindas deste episódio."
As investigações Voldemort e Publicano, deflagradas no começo deste ano pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), braço do MP, revelaram supostas organizações criminosas com alcance no governo estadual, principalmente pelas evidências contra o empresário Luiz Abi Antoun, parente distante do governador Beto Richa (PSDB). Segundo o auditor fiscal Luiz Antonio de Souza, delator do esquema de propina na Receita Estadual, parte do dinheiro abasteceu a campanha do PSDB em 2014.
Ontem, o acidente foi explorado em blogs e nas redes sociais por figuras conhecidas no meio político: do ex-secretário estadual de Segurança e deputado federal, Fernando Francischini (SD), exonerado depois da repressão policial contra professores no Centro Cívico, ao ex-tesoureiro do PT, Delúbio Soares, condenado e preso na ação penal do mensalão. Insinuavam em seus perfis que teria havido descumprimento da lei por parte da promotora e de outros agentes do MP que a acompanharam até a delegacia, além de suposto privilégio.
Em entrevista à FOLHA, o presidente da APMP, Cláudio Franco Felix, afirmou que "tem pessoas que se aproveitam das oportunidades por interesses próprios", sem apontar para algum caso específico. Sobre o episódio com a promotora, Felix disse que não vê a "menor possibilidade de haver alguma interferência nas investigações".
Ele reforçou o conteúdo de nota divulgada pela associação no final da tarde, de que não foi tomada nenhuma medida para dificultar o trabalhos dos policiais que atenderam a ocorrência. Leila foi liberada após o registro do BO, conforme prerrogativa de função. "É previsão legal, semelhante à magistratura, onde a prisão em flagrante somente pode ocorrer em crimes inafiançáveis, o que não era o caso."

‘EXEMPLARIDADE’


A Corregedoria-Geral do Ministério Público (MP) do Paraná deve instaurar procedimento administrativo para apurar a conduta a promotora Leila Shimiti. Conforme MP, embora o acidente "não esteja relacionado ao exercício das atividades funcionais, a conduta dos membros do Ministério Público requer exemplaridade tanto na vida pública quanto privada". O boletim de ocorrência ainda não havia sido encaminhado pela Polícia Civil de Londrina. Leila também pode responder perante o Tribunal de Justiça do Paraná.
A assessoria da promotora, em Londrina, informou que ela não foi até a sede do MP ontem.

mockup