São Paulo - Em menos de duas horas, no final da tarde de ontem, um ministro do governo garantiu que as fotos divulgadas no domingo, numa reportagem sobre a morte do jornalista Vladimir Herzog, em 1975, eram falsas e um especialista da Universidade de Campinas (Unicamp) rebateu dizendo que elas são verdadeiras. Trata-se de três fotos em que o jornalista aparece nu, numa cela do Doi-Codi paulista, pouco antes de morrer, a 25 de outubro daquele ano, publicadas pelo jornal Correio Braziliense.
A afirmação de que são falsas partiu da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), e com base nela o ministro chefe da Secretaria Especial de Direitos Humanos, Nilmário Miranda, distribuiu nota sustentando que ''as fotos publicadas na imprensa durante esta semana não correspondem ao jornalista Vladimir Herzog, morto pela repressão em outubro de 1975'' e que já havia até informado a família a respeito. ''Assim que fui informado, comuniquei o fato à Clarice Herzog, viúva de Vladimir Herzog, a quem transmiti os sentimentos de solidariedade'', dizia a nota do ministro. Informado também da avaliação da Abin, o Comando do Exército não quis se manifestar sobre o caso.
A perícia havia sido pedida por Nilmário na quarta-feira. As fotos, conforme apurou a Agência Estado, seriam - na versão da Abin - do padre canadense radicado no Brasil Léopold D'Astous, que foi pároco durante 31 anos na Igreja de São José Operário, em Brasília. Investigado por envolvimento com grupos de esquerda, ele foi fotografado pelo Serviço Nacional de Informação (SNI), em 1974, um ano antes da morte de Herzog.
Em Campinas, o perito Ricardo Molina, do Instituto de Pesquisa do Som, Imagem e Texto, de Campinas e da Unicamp, discorda das conclusões da Abin. Ele produziu um parecer sobre as fotos a pedido de um cliente que o especialista prefere preservar. Sua analíse indica que em pelo menos duas delas as imagens são mesmo do jornalista, morto no Doi-Codi em outubro de 1974.
Molina diz que, para ele, ''será uma grande surpresa'' se pelo menos essas fotografias não forem de Herzog. Molina ressalta, todavia, a baixa qualidade do material, ''as imagens degradadas, fotos de fotos, iluminadas com flashes e depois escaneadas, o que reduz muito a possibilidade de uma boa perícia''.
O perito destaca que nas fotos o homem apontado como sendo Herzog aparece com um modelo de relógio Omega, indicado pela viúva, Clarice, como sendo o de uso pessoal dele. ''Há mais indícios'' sustenta Molina: ''Ele era iugoslavo, seu cabelo seguia um certo formato comum naquela região do leste europeu''.
Em uma das três fotos divulgadas pelo Correio Braziliense, ao lado do preso nu aparece uma mulher, que se chamaria Terezinha, em gesto de aparente desespero e com as mãos abertas. Conforme versão sustentada na época por fontes da igreja, a cena seria uma armação, simulando um flagrante de ato sexual entre os dois, para desmoralizar o religioso por causa de sua militância de esquerda. Léopold ficou na paróquia até 1997, quando se aposentou e voltou para o Canadá, onde mora na cidade de Rimouski.

mockup