A verdade sangra
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terça-feira, 09 de maio de 2000
Luiz Geraldo Mazza 
A verdade sangra, mas também tem pus. Como um corpo vivo, a gestão pública se deixa contaminar por vírus, parasitas, patologias várias. Como os animais, ela sabe ser mimética, posar de generosa e popular quando não o é e de honesta quando tudo indica o contrário. O que se está assistindo no Paraná e, em especial, em Londrina (Ponta Grossa ainda se ajusta na fila), é um retrato 3x4 do Brasil inteiro. Antecedentes como os de Collor e, na sequência, o dos anões do orçamento, dentre os quais pontificava o deputado (e promotor público, vejam bem) Ibsen Pinheiro, ex-dirigente da Câmara Baixa (e que nunca foi tão baixa), este o justiceiro imponente daquele caso que levou o presidente à renúncia, mostram que o ocorrido em Londrina é a normalidade na vida brasileira e não o atípico.
A verdade sangra, mas também tem pus. Apesar do trabalho bem-feito em nosso segundo pólo urbano, por pressão da sociedade organizada e diligência, em especial, do Ministério Público, ao longo de mais de um ano de investigações, é possível que estejamos apenas vendo a parte visível de um iceberg, já que se acredita que o rombo ultrapasse e em muito os R$ 16 milhões referidos nas transações irregulares das autarquias AMA-Comurb. A cautelar pleiteando o afastamento do prefeito Antonio Belinati visa impedir que dificulte e até obstrua procedimentos e manipule provas.
Não se atingiu ainda em Londrina a capilaridade obtida com as investigações para incriminar o prefeito Celso Pitta, em São Paulo, e cujas dificuldades de tramitação explicitam, de certa forma, a demora em obter clareza em torno dos acontecimentos numa estrutura de poder mais singela. Lá, como aqui, do conflito é que emergiu a verdade: Nicéa, ex-esposa de Celso Pitta, não foi o principal testemunho, porém alavancou as denúncias; aqui, disputas de campanário também permitiram pelo estrago provocado por Eduardo Alonso e, mais tarde também pelo publicitário Waurides Brevilheri Júnior remexeram nos sedimentos dessa lagoa que para os romanos era a Cloaca Máxima. De Collor e do sinistro esquema de PC Farias, envolvendo tantas empresas e figuras importantes, nada também se saberia se Pedro biblicamente não delatasse o irmão Fernando.
Do governo estadual, já atingido no episódio não apenas pela incriminação da vice-governadora, mas até pela circunstância de, em mais de um depoimento, o próprio Jaime Lerner ter sido apontado como beneficiário eleitoral dos desvios ocorridos espera-se o cumprimento de uma promessa semelhante à feita sobre os conflitos da polícia com os sem-terra: transparência absoluta, afinal um direito de toda a população. E, de saída, é preciso fazer aquilo que a Assembléia Legislativa não pôde, por intervenção política do governo, ao obrigá-la ao recuo na investigação sobre a venda de ações da Sercomtel à Copel, causa-matriz, segundo alguns depoimentos mais fortes, do alude de lama. Lembre-se que a CPI já estava instalada e deve haver muito a esconder para que fosse evitada de forma tão desesperada quanto irracional e rocambolesca.
A verdade sangra como um corpo na cirurgia. Urge salvá-lo do pus e de toda a infecção para torná-lo, aí o corpo da cidade, à altura de um povo que teve capacidade de aglutinar-se e exigir essa profilaxia. A cidade não pode aceitar que seja a imagem dos que a infelicitam e afligem. E por isso também exige rituais com dignidade e que respeitem as regras da Justiça.
- LUIZ GERALDO MAZZA é articulista da Folha


