A sociedade como olhos das instituições
PUBLICAÇÃO
sábado, 20 de junho de 2009
Janaina Garcia<br>Reportagem Local 
Um regime democrático fortalecido é (também) aquele em que os órgãos de fiscalização atuam de maneira efetiva e independente; um regime democrático maduro é aquele em que esses mesmos órgãos podem ter, no cidadão comum, um aliado que os ajude na tarefa de fiscalizar o que nem sempre é visível pelos olhos dessas instituições. Foi assim, por exemplo, que o ano de 2008 marcou da pior forma a história do Legislativo londrinense, que viu o navio da pretensa moralidade afundar a partir do relato de um empresário, no Ministério Público (MP), denunciando a extorsão em troca de aprovação de projetos. O comércio paralelo, revelado por outras fontas aos promotores ainda que nem sempre espontaneamente , fez com que nada menos que metade dos 18 vereadores empossados em 2005 se tornasse réu em processo nas justiças cível e criminal.
Foi também a partir da denúncia de pessoas comuns que Londrina descobriu o que há anos estava restrito aos corredores da Administração de Cemitérios e Serviços Funerários de Londrina (Acesf), encoberto por um falso manto de normalidade ainda que em minoria dentre os quase 90 funcionários da autarquia, um grupo foi acusado, por dezenas de denunciantes, de coação pela aquisição dos serviços de tanatopraxia (técnica de conservação de cadáveres).
É a partir desses dois escândalos, e com base nas entrevistas concedidas à FOLHA por chefes dos mais diversos setores de fiscalização no Paraná, que a reportagem a seguir apresenta não apenas a avaliação que cada um desses profissionais faz sobre uma participação ativa do cidadão no trabalho que executam, como também os canais pelos quais as denúncias podem ser apresentadas.
Receita Federal
O delegado-chefe da Receita Federal em Londrina, Sérgio Gomes Nunes, afirmou que as denúncias que chegam ao órgão têm, em sua maioria, um cunho mais fiscal. Mas ele ressalva: Embora elas tenham esse enfoque, podem embasar ações de crimes de outra natureza, tais como lavagem de dinheiro, receptação, tráfico, contrabando e descaminho, e até casos de
improbidade envolvendo ou
não servidores públicos, explicou.
Nunes comentou que as denúncias mais comuns que chegam à Receita são as referentes a empresas que mantém contabilidade paralela à oficial o famoso caixa 2. Há também as denúncias de empresas que usam laranjas, seja este alguém que sabe que está sendo usado, ou não.
De acordo com Nunes, as denúncias podem chegar a partir de qualquer cidadão, desde que com elementos suficientes para subsidiar processos de investigação da Receita ou mesmo do Ministério Público Federal (MPF). Entretanto, ele frisa que há exigências e determinados cuidados que são considerados na recepção da denúncia. Verificamos se a denúncia é relevante e se não está sendo usada como instrumento de vingança, pois a Receita tem de agir da maneira mais impessoal possível. Até porque o Código Tributário Nacional nos impõe o sigilo a partir do momento em que se abre o procedimento fiscal. Qual a importância de o cidadão se manifestar, quando souber de irregularidades? Ele nos é um instrumento importante, até porque sabemos que quem sonega esconde outros crimes e está lesando quem paga corretamente seus tributos. Esse dinheiro que seria arrecadado é para trazer ganhos e transformar a realidade, considera.
Indagado se em Londrina as denúncias a partir da sociedade civil as quais devem chegar por escrito e, prefencialmente, diz o delegado, não-anônimas são comuns? Londrina é uma cidade que tem amadurecido muitas dessas questões, mas sabemos que ainda há um campo vasto para se percorrer. E o cidadão tem um papel fundamental nisso: não tenho dúvida disso.
Atualmente, a Delegacia da Receita Federal em Londrina tem em curso mais de 600 procedimentos relacionados a sonegação fiscal.
Ministério Público
Pelo Ministério Público Estadual, o coordenador, promotor Jorge Barreto da Costa, informou que as denúncias podem ser encaminhadas por telefone ou pessoalmente. Se tiverem o cunho de plausibilidade, vamos investigá-las, ainda que sejam feitas sob anonimato mas a preferência sempre é pela identificação, pois isso confere até um maior caráter de seriedade ao que está sendo exposto. Sempre é deixado claro, além disso, que mantemos o sigilo da fonte, explicou Barreto. Indagado sobre que tipos de denúncias são mais comuns no MP, o coordenador citou os casos de corrupção ou participação direta e indireta de policiais em crimes especificamente as quer chegam ao Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do qual ele é integrante , e situações denunciando improbidade administrativa caso da Promotoria de Defesa do Patrimônio Público.
A apresentação dessas denúncias é importantíssima sob o ponto de vista do interesse público. A bem da verdade, a sociedade serve de olhos para nós o que nos chega, vamos atrás para investigar, temos meios para isso, disse.


