A sinistrose compulsiva
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 26 de novembro de 2003
LUIZ GERALDO MAZZA 
O Brasil é pendular entre o ufanismo oco e a sinistrose doentia. Não apenas no regime militar tivemos que suportar as avalanches do ''Brasil, grande potência'' e de apelos patrioteiros do tipo ''Ame-o ou deixe-o''. Por sinal que temos brasileiros no mundo inteiro, bastando acompanhar jogos da seleção de futebol ou de vôlei, o que ainda agora o constatamos no Japão. Prova de que apesar do extremado amor acabaram nos deixando, muitos para sobreviver.
O ufanismo é um estado de espírito nacional. Vicente Celestino em ''Terra Virgem'', com sua voz operística, cantava ''O meu Brasil para aumentar a sua glória// Dia virá em seu futuro ascensional// Em que o mundo invejará a sua história// Porque serás um paraíso universal!'' E vá a cantar os seus campos, o rio, o mar, o sol de ouro e o céu de anil ''E a natureza que se mira numa fonte// enche de frutos o regaço do Brasil''.
FOME PARA 9% - Técnicos do Instituto de Pesquisa e Planejamento Aplicado, Ipea, sempre negaram procedência às especulações do petismo vitorioso ou mesmo daquelas tabulações do Betinho de que haveria no País mais de 50 milhões de esfomeados. Pois bem: o mais recente levantamento da FAO, órgão da ONU, diz que 1990-92 para 2001 a fome caiu vertiginosamente no Brasil: de 18,6 milhões para 15,6 milhões, uma curva de 12% para 9% da população.
A mensuração do ''Fome Zero'' se assentou em muitos desses mitos, às vezes criados com a boa intenção de mais sensibilizar. O Ipea alertou para o fato de que muitas dessas formulações decorriam do fato de essas análises levarem em conta apenas a renda monetária. Assim aquilo que se obtém pela malha assistencial (saúde, educação, programas oficiais e de ONGs) e também pelo escambo (troca de mercadorias) e doações eram minimizados.
Certa ocasião fiz uma palestra num centro de formação de lideranças do PT e quando comecei a mostrar que contingentes da população que percebiam de meio a um salário mínimo tinham domicílio próprio a reação era de estupor. Projetei os quadros da Pesquisa Nacional por Amostra Domiciliar do IBGE que revelavam o espantoso aparato de consumo que havia mesmo nos ranchos denominados, de forma técnica, de rústicos e dos segmentos pobres da população. Como há idealização no otimismo ela opera no pessimismo também.
A MANIPULAÇÃO - No governo Lula, em termos macroeconômicos, as coisas não vão mal, mas aumenta a concentração de renda, cai vertiginosamente o poder de compra dos salários e esse mecanismo, com o desemprego, leva ao crescimento absurdo em 50% das crianças no mercado de trabalho. Seria um desastre se a estatística da pobreza em queda no período de 1990 a 2001 subisse no ciclo de Lula. Isso, por certo, obscureceria o ainda presente ''decor'' de messianismo no Brasil.
A propósito um dos cultos da esquerda (e era o nosso também) era insistir nos dados negativos. Essa deformação é visível na imprensa: há jornais que mostram o dado positivo em manchete e outros que o fazem com o negativo. O ''Estadão'' diante da ''Folha de S.Paulo''. O mesmo relatório do IBGE pode ter esses dois tipos de leitura. Mas acontece também, convenhamos, com encíclicas papais, nas quais destacávamos o lado socialista e minimizávamos o liberal. Isso desde Leão XIII passando por João XXIII, Paulo VI até o atual João Paulo II. O que em boa parte explica o foco particularíssimo que o MST tem da realidade como se fosse apenas a visão do excluído que devesse prevalecer.


