Esta coluna voltará a circular dia 5 de agosto, após o fim do recesso parlamentar.A rebelião dos policiais civis e militares, que já se alastra por todo o País, pode se revelar a ponta de um imenso iceberg que, em sua trajetória inexorável para o desastre, poderá abalroar o principal argumento para a permanência de Fernando Henrique por mais quatro anos no poder - a continuidade do programa de estabilização da economia.
Os policiais representam um setor significativo da população e sofrem na própria carne a situação pré-falimentar dos Estados, cuja capacidade de endividamento, último recurso para que possam dar início ou continuidade a obras e programas assistenciais, está exaurida. Nos últimos dois anos, e somente para pagamento de juros - os juros escorchantes estabelecidos pelo governo federal -, os Estados viram jorrar ladeira abaixo R$ 47 bilhões.
O governo justifica a alta taxa de juros como sendo um forte chamariz para investimentos estrangeiros e aplicações no país. E tem razão: poucas vezes em sua história como agora o Brasil foi tão convidativo, indústrias e mais indústrias se instalam aqui e nossas reservas cambiais - avaliadas em mais de 50 bilhões de dólares - dão folgada margem de manobra. O outro lado da moeda, trágico, é o custo econômico e social dessa política, que atrai os estrangeiros mas expulsa do mercado cada dia mais brasileiros, empresários ou empregados.
A paralisação dos policiais é reflexo desta política e ocorre num momento delicado para o País, pois, na área política, a autoridade do presidente Fernando Henrique encontra-se abalada pelo recente episódio envolvendo o ministro das Comunicações, Sergio Motta, e a base aliada do governo no Congresso. A pressão social, o maior temor de um governo já que suas consequências são sempre imprevisíveis, torna-se ainda mais perigosa quando a autoridade máxima do país demonstra que não tem tanta autoridade assim.
As manifestações programadas para hoje em todo o país por centrais sindicais, sem-terra e outras categorias seria apenas mais um ato de protesto não fossem as dimensões que toma neste momento delicado. Manifestantes estarão lado a lado com os policiais e poderão repetir, como em Porto Alegre, atos de solidariedade recíproca que arranhem, de forma comprometedora, a autoridade do Estado. Quando policiais, que são funcionários do governo e pagos (embora mal, muito mal) para manter a lei e a ordem, dão as mãos a manifestantes contrários ao governo é porque o princípio da disciplina, filho da autoridade, já não mais prevalece no seio da instituição. E se a instituição, principalmente a PM, já não respeita este princípio, como poderá acatá-lo quando e se for chamada para restabelecer a ordem em situações de emergência e convulsão sociais?
O vazio deixado pelos PMs em praticamente todo o País está sendo preenchido pelo Exército, o que abre um grave precedente e, mais uma vez, coloca em situação difícil a autoridade do presidente da República. O presidente governa os Estados através de seus procuradores - os governadores -, e estes estão com as mãos atadas diante das reivindicações salariais dos policiais e se tornaram, em muitos casos literalmente, reféns dos amotinados. A cadeia da autoridade, portanto, foi rompida também neste caso. E quando a autoridade falha, o caminho para o caos fica desimpedido.

mockup