Câmara Municipal está novamente no centro de um suposto esquema de corrupção, dez anos após escândalo que resultou na prisão e cassação de vereadores
Câmara Municipal está novamente no centro de um suposto esquema de corrupção, dez anos após escândalo que resultou na prisão e cassação de vereadores | Foto: Fábio Alcover



Curitiba – Londrina passa novamente por um escândalo de corrupção na Câmara Municipal, com o suposto envolvimento de vereadores, servidores municipais, ex-secretários e empresários em um esquema de corrupção envolvendo aprovação de mudanças de zoneamento, conforme investigação da Operação ZR3, deflagrada pelo Gaeco (Grupo de Apoio Especial de Combate ao Crime Organizado) no último dia 24 de janeiro .

O caso chegou ao conhecimento público poucos dias depois do então maior esquema de corrupção na Câmara, com a prisão do ex-vereador Henrique Barros, completar 10 anos. Naquele fato, também eram exigidos pagamentos para aprovar projetos de lei de interesses de empresários do município. A FOLHA conversou com analistas políticos para tentar entender o porquê, mesmo com tantos acontecimentos e investigações divulgados, sobretudo no âmbito da Operação Lava Jato, com todos os seus desdobramentos e condenação de diversos políticos, agentes públicos ainda se deixam levar pela corrupção. No caso de Londrina, chama a atenção o fato de novos escândalos políticos virem à tona seis anos depois de a cidade cassar um prefeito pela segunda vez na história (Barbosa Neto perdeu o mandato em 2012, doze anos depois de Antonio Belinati ter tido o mandato interrompido).

ESTRUTURA
Para o professor de filosofia política da UEL (Universidade Estadual de Londrina), Elve Censi, existem estruturas mal organizadas pelo Executivo municipal, que facilitam essas práticas na cidade. "A partir do momento que se faz esse planejamento urbano, que permite esse fatiamento pontual, automaticamente estão abertas as portas de facilidades para burlar isso. Pois é criado um espaço que é um balcão de negócios para agentes públicos, funcionários públicos e empresários, que podem resolver seus problemas nesse esquema", explica. O cerne da Operação ZR é um suposto esquema de pagamento de propina na elaboração de projetos visando a mudança de zoneamento no município.

O professor do departamento de Ciência Política da UFPR (Universidade Federal do Paraná), Emerson Cervi, também explica que a corrupção é sistêmica e alimentada pelos moldes da política brasileira. "O problema da corrupção na política não é o indivíduo, é o sistema. Muitas vezes analisa algum político e se depara com ele falando que entrou no esquema porque foi influenciado, era do partido ou era da bancada. Não adianta procurar explicação no indivíduo, porque nós vamos substituir o indivíduo e o sistema vai continuar o mesmo", ressalta.

De acordo com o professor londrinense, um dos "antídotos" para a corrupção é a participação da sociedade em conselhos, por exemplo. Ele acredita que Londrina aos poucos está entendendo isso e não deixando vingar as práticas corruptas. "Londrina tem uma dimensão paradoxal, pois tivemos muitas figuras envolvidas com corrupção: Belinati, Barbosa Neto e o próprio Youssef saiu daqui. Há 10 anos nós, após o grande escândalo, tivemos a maior renovação da Câmara de Vereadores. Claro que muitas dessas figuras voltam, porque a própria dinâmica do sistema permite isso", lembra. O doleiro londrinense Alberto Youssef foi um dos primeiros delatores da Operação Lava Jato.

A participação ativa da sociedade e uma melhor atuação de agentes na prevenção são pontos destacado pelos dois especialistas. Para eles, é necessário combater para não precisar punir. Cervi ressalta que só falar sobre o assunto não resolve. "Mesmo com as operações de grande visibilidade, os corruptos vão continuar cometendo os crimes, porque você não está prevenindo, você está justiçando e o justiçamento público só serve para as pessoas falarem sobre a consequência e não a causa. Só dar visibilidade não combate a corrupção", afirma.

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