Luiz Geraldo Mazza
De Curitiba
Não é coincidência a paralisia que tomou conta do Paraná com a morte de Aníbal Khury: decisões sobre os problemas da área de segurança, onde detinha forte influência, foram transferidas, quando se aguardava um rolar de pelo menos duas cabeças dirigentes, o que aliás não iria acontecer até pela notória falta de pulso do governador; a mobilização dos professores que marcaria os 11 anos do massacre dos grevistas perdeu ‘‘punch’’ porque o falecido sempre atuou como mediador nas reivindicações do magistério.
Aníbal Khury chegou a permitir, ao lado do então presidente, Antonio Anibelli, a invasão do Legislativo pelos grevistas, o que se é condenável como ato subserviente a manifestações de massa, teve, no entanto, o mérito de reduzir as tensões geradas pelo massacre do Centro Cívico. Não foi a única vez, mas na última percebeu-se o dedo do gênio quando promoveu uma festa aos professores com uma cantora entoando o clássico de Ataulfo Alves que fala da professorinha ‘‘que me ensinou o beabᒒ, o que deu uma temperada melodramática no fervor sindicalista e que cultua a luta de classes.
Um corte epistemológico de mestre. Nessas era imbatível, embora nos últimos tempos estivesse perdendo poder na própria Assembléia na medida em que as articulações da base aliada lhe fugiam ao controle, o que também se verificava no Judiciário, onde a sua influência, sempre evidente, caía com a mudança de quadros e de direção.
Pode-se dizer que ninguém substituirá Aníbal Khury em espaços de tanta abrangência pelo menos a médio prazo. Esse poder hegemônico não é bom para a democracia, porém inseparável dos nossos padrões atuais, ainda ligados ao populismo e à prática do assistencialismo, linha dominante do estilo do ‘‘guru’’. Aníbal era daqueles que dominaria a Assembléia, mesmo com um cargo de relevância menor na Comissão Executiva.
Jorge Khury, seu irmão, ex-deputado federal, alinhadíssimo com o lacerdismo e as primeiras articulações para derrubar Jango, costuma dizer que os poderes de Aníbal surgem por gravidade, isto é, por uma espécie de sedimentação dos fatos e de sua dimensão mítica, visível na esperança dos que o procuravam para as suas demandas e na certeza que se cultivava de que não falhava nessa assistência.
Difícil que alguém lhe ocupe o espaço, porque além de enorme demais para uma só pessoa ou mesmo família, há uma medida imponderável que reside no imaginário das pessoas comuns e dos políticos. Na visão deles, Aníbal tudo podia e até porque muitos deles se atribuiam uma proximidade com o Buda nem sempre verdadeira, presente, no entanto, no ritual da mediação.
Espera-se apenas que não haja, da parte dos que mantinham ressentimentos em relação a Aníbal, ações de retaliação contra seus protegidos mais próximos, simplesmente porque perderam esse direito de fazê-lo com dignidade ao calarem ou apenas regougarem enquanto o Buda estava entronizado, ligado à vida seja no exercício da engenharia humana, assistencial para meu gosto, seja nos seus prazeres como o da gula que ajudou a derrubá-lo.
O que vai ocorrer no íntimo do poder dependerá muito de todos agentes, e em especial de Lerner, que teve em Aníbal, mesmo quando aparentando obstáculo, um fator inegável de dinâmica interna. Como Lerner parece não ter tomado posse do governo, há quase cinco anos, em termos de prerrogativas gerais, tudo pode acontecer e, até mesmo para nossa melancolia, nada mudar como no épico de Lampedusa sobre a saga garibaldina.Decisões importantes foram adiadas e manifestação dos professores no Centro Cívico ocorreu em clima de respeito


Arquivo FolhaO DONO DA BOLAAníbal Khury segura a bola de um time formado por deputados e secretários estaduais (1996); atrás (em pé), de terno e gravata, o governador Jaime Lerner

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