No ano 2000, quando o então prefeito Antonio Belinati (à época no PDT, atualmente no PP) enfrentava as primeiras ações de uma leva de quase 100 delas ingressadas pelo Ministério Público (MP) –
64 delas, entre 2000 e 2005 –, um dos autores das denúncias, o então promotor Bruno Galatti, tinha uma estimativa que, para muitos, não era nem um pouco otimista: o julgamento de boa parte delas ou mesmo os primeiros resultados em termos de ressarcimento ao erário demandariam cerca de 10 anos. Hoje, Galatti revê o cálculo, dessa vez, em um tom desalentador: ‘‘É lamentável que, depois de tantos anos, temos poucas ações julgadas. Esperávamos que houvesse mudança tanto nos eleitores quanto na classe política, mas a lição foi esquecida em pouco tempo – bem que tínhamos o ‘Movimento pela Moralidade’, mas ele se desfez rapidamente’’, constata. ‘‘O julgamento das ações é importante, mas creio que tanto pelo lado político quanto pelo social estamos devendo alguma coisa; aquilo ainda não serviu de diferencial’’, opina.
  Na avaliação de Galatti, o ‘‘diferencial’’ a ser buscado não está no eleitorado mais velho e, sim, nas futuras gerações; não apenas na efetividade das ações da Justiça, mas naquelas comandadas pela própria sociedade – na qual ele pinça componentes como escola, partidos políticos e representantes de segmentos organizados. ‘‘Não dá apenas para se esperar que a Justiça julgue, porque a cidade sofreu muito, pagou caro por aquele momento político. Não se trata de recuperar fantasmas do passado: Londrina tem que pensar em como vai se tratar, daqui para a frente, ou como ela quer que seus filhos e netos se relacionem com o ambiente político’’,
afirma Galatti.
  No Ama-Comurb, que apurou um esquema milionário de supostas fraudes para desvio de recursos públicos e enriquecimento ilícito – valor que até hoje está sob cálculo –, Galatti foi uma das pontas de um tripé de investigação composto também pelo hoje promotor do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), Cláudio Esteves, e pelo promotor Antonio Winckert de Souza, que veio de Curitiba designado especialmente para o caso. Os trabalhos ampliaram a ponto de, em 2005, a Procuradoria-Geral de Justiça do Paraná ter instaurado em Londrina uma força-tarefa para as investigações do escândalo que, sobretudo na esfera cível, corriam risco de prescrever. O saldo de três meses de trabalho, em
31 de maio daquele ano:
53 ações, nas quais era requerida a devolução
de R$ 10,7 milhões aos cofres públicos.
  ‘‘A cassação em 2000 serve para demonstrar que aquela fase de impunidade teria terminado na política em Londrina; creio que essa foi a maior lição deixada naquele momento’’, ressalva Galatti, para quem o episódio pode ser visto, nos dias de hoje, como uma espécie de precursor dos escândalos de gestão fraudulenta de verbas públicas que assolam agora a Assembleia Legislativa do Paraná. ‘‘O que vivemos
em Londrina, vivemos, em certo modo, em Curitiba; Londrina, com certa antecedência, cobrou.’’
Londrina exemplo
  Além do caso dos fantasmas da AL, Galatti conta que gosta de citar outro exemplo histórico para evocar, paralelamente, as consequências do Ama-Comurb para as gerações seguintes. ‘‘Eu sempre citava a Alemanha do pós-guerra: lá, deixaram barcos e prédios destruídos, por exemplo, para que fossem visitados pela juventude. No passado Londrina também sofreu muito com seus administradores, então tinha que verificar o que aconteceu e o quanto perdeu – só na venda de parte da Sercomtel, foram mais de US$ 100 milhões, e o futuro da cidade dependia daquilo ali’’, compara, para arrematar: ‘‘Por muitas décadas, acho, ainda vai depender, tanto que até hoje paga com a falta de asfalto decente, de escolas, viadutos, e as pessoas já se esqueceram que, se falta verba pública para isso, é também porque lá atrás começou o problema’’, define.
  A FOLHA quis saber do subprocurador: e pelos próximos 10 anos, qual o estado de espírito? Mais uma vez, otimismo não parece ser a tônica – mesclada, talvez, com um realismo nem um pouco fantástico. ‘‘Espero que as novas gerações possam firmar princípios mais firmes de valores, porque, hoje, o que parece reger são os interesses econômicos. E é sempre possível piorar um pouco mais...’’ Nem a recém-promulgada ‘‘Ficha Limpa’’ – sancionada pela Presidência em 7 de junho passado e já com entendimento do TSE para vigorar no próximo pleito – o anima a mudar o prognóstico? ‘‘Se não houver uma reforma política adequada, a ‘Ficha Limpa’ será não mais que um retalho nessa colcha.’’

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