SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Com o segundo lugar na disputa pela Prefeitura de São Paulo, Guilherme Boulos (PSOL) sai da eleição de 2020 com uma derrota eleitoral para Bruno Covas (PSDB), mas afirma ter colhido uma vitória política.

Ao reconhecer a derrota na noite deste domingo (29), Boulos afirmou que sua campanha "apontou para o futuro". Em um breve pronunciamento pela internet, o candidato disse que sai vitorioso e que um novo ciclo se anuncia.

Boulos afirmou ainda que segue à disposição na luta por democracia e justiça social e indicou uma nacionalização do embate político que travou na campanha.

"Olhando para a história e para o futuro, não tenho dúvida alguma de que, apesar de a gente não ter ganho essa eleição, a gente saiu vitorioso. É o início de um ciclo que se anuncia.", afirmou.

"Os mais de dois milhões de votos que a gente recebeu hoje são a energia que a gente precisa para seguir lutando. [...] Quando a gente tem lado e sabe o que quer, a vitória vem. Digo, olhando no olho de todos vocês, ela vai vir", completou.

Boulos afirmou que sua campanha é apenas um ponto de partida. "É o ponto de partida para que a onda de esperança que a gente viu aqui, não fique só aqui. Que seja exemplo e inspiração para milhões de pessoas lutarem por um país mais justo, democrático e diverso."

O candidato agradeceu o apoio da juventude e afirmou que os jovens querem mudança e voltaram a confiar na política como o instrumento para alcançá-la.

Antes da live, Boulos apareceu na sacada de sua casa e falou aos apoiadores que estavam concentrados no local, perto das 19h30. O candidato derrotado agradeceu aos eleitores e aos militantes.

"A gente apontou o futuro. Não está terminando, está começando", discursou ele, que exibiu uma faixa com os dizeres: "Lute como quem sonha".

Desde a confirmação do resultado, militantes e auxiliares da campanha ocuparam a rua da casa do candidato. Por volta das 19h, o grupo era de cerca de 20 pessoas. Algumas delas choraram.

Ele reiterou sua vontade de atuar por "um país sem autoritarismo, que combata o atraso".

"[Quero] agradecer de coração a cada um e a cada uma que acreditou, a cada um e a cada uma que segue acreditando, todos que semearam esperança e amor. A gente vai ganhar, a gente vai vencer", disse, sob aplausos.

Boulos, que teve na sexta-feira (27) a confirmação de que está com Covid-19, fez um discurso rápido para obedecer às recomendações sanitárias. O candiddato passou o domingo isolado em sua casa e sequer foi votar.

Ele falou sem microfone, ao lado da mulher, a também ativista de moradia Natalia Szermeta.

Se em público as declarações nos últimos dias ficavam restritas ao discurso otimista, nos bastidores auxiliares e correligionários falavam sobre a hipótese de derrota, à medida que as pesquisas mostravam uma dificuldade do psolista de ultrapassar o adversário tucano.

Acima de tudo, leitura de pessoas próximas ouvidas pela reportagem era a de que, em primeiro lugar, a ida de Boulos ao segundo turno e, em segundo, a concorrência apertada que impôs ao PSDB do governador João Doria (PSDB), virtual candidato à Presidência em 2022, significaram um feito para a esquerda.

O coordenador do MTST (Movimento dos Trabalhadores sem Teto) saiu do primeiro turno com 1 milhão de votos na capital, desempenho melhor do que os 617 mil votos alcançado no Brasil em 2018, quando concorreu à Presidência da República.

O próprio Boulos já vinha externando o contentamento com o resultado e sinalizando se tratar de uma conquista que o habilita a alçar voos mais altos em 2022 --ele é cotado tanto para a disputa para o governo do estado quanto para o Planalto, a depender do cenário até lá.

Aliados comemoraram a performance principalmente pelo que consideram disparidade de armas entre os postulantes do PSOL e do PSDB. Além de mais recursos e um tempo superior na propaganda eleitoral (17 segundos contra 3min29s no primeiro turno), a sigla do rival controla as máquinas municipal e estadual.

Além disso, a capital paulista se notabilizou nos últimos anos por impor derrotas duras à esquerda. Fernando Haddad (PT) teve 16,7% dos votos válidos ao tentar a reeleição em 2016, e o pleito foi vencido no primeiro turno, algo inédito, por Doria, que abocanhou 53,29% dos votos.

Oficialmente, nem Boulos nem seu partido falaram nos últimos dias sobre o risco de derrota ou eventuais planos para 2022. Da porta para fora, o discurso era só um: o de que o candidato, empurrado por uma frente de partidos de esquerda, bateria Covas e viraria prefeito.

Não deu.

Boulos conseguiu, no entanto, um movimento inédito. Aglutinou em torno de si alguns dos principais partidos de esquerda e centro-esquerda do país, com uma união que vinha sendo buscada inclusive no plano nacional, sem se concretizar.

No segundo turno, o PSOL, que já contava na coligação com PCB e UP, obteve o apoio de mais cinco partidos, PT, PC do B, PDT, PSB e Rede Sustentabilidade.

Líderes de envergadura nacional, como o ex-presidente Lula (PT), o ex-ministro Ciro Gomes (PDT) e a ex-senadora Marina Silva (Rede), deixaram de lado mágoas do passado e gravaram vídeos para a propaganda eleitoral de Boulos.

Ao montar o que chamou de "frente democrática por São Paulo", o candidato procurou evitar que a presença de Lula ganhasse protagonismo, o que poderia fortalecer a estratégia dos tucanos de associarem o líder de movimentos de moradia ao ex-presidente. Não aconteceu.

O slogan "sai maior do que entrou", entoado por apoiadores de Boulos diante de seu desempenho na eleição para prefeito, evoca também uma analogia com o pleito de 2018, o primeiro em que se candidatou, depois de se filiar ao PSOL em 2018.

Na preparação para a candidatura a prefeito, Boulos procurou apaziguar divisões no partido e atraiu para concorrer a vice a deputada federal e ex-prefeita Luiza Erundina (PSOL). Na campanha, a veterana se tornaria um antídoto para as críticas sobre a inexperiência do cabeça da chapa na gestão pública.

Como candidato, também gastou energia combatendo o que considera um esquema de disseminação de fake news a respeito dele e do movimento de luta por moradia. Buscou desmentir a pecha de invasor explicando a atuação do MTST, grupo no qual milita há 20 anos e do qual é coordenador nacional.

As ações de invasões em terrenos, bloqueios de avenidas e protestos que culminaram em atos de violência ajudaram a forjar a imagem de radical explorada por adversários.

Boulos refuta a fama de intransigente, dizendo que não baixou o tom nem recuou de seus ideais. Segundo ele, o discurso de veia mais conciliadora exibido na campanha municipal sempre o acompanhou, mas era desconhecido da maioria por causa de preconceitos criados sobre ele.

A candidatura do PSOL apresentou um plano de governo ancorado no combate à desigualdade social e na chamada "inversão de prioridades", pela qual a prefeitura deveria dar atenção maior à periferia e aos cidadãos que mais precisam, em vez de governar para as áreas e os moradores que já têm recursos.

Como revelou o jornal Folha de S.Paulo, Boulos também tentou quebrar resistências no mercado financeiro e no empresariado a seu programa, que previa reduzir a presença da iniciativa privada no setor público e aumentar tributos sobre bancos, ao mesmo tempo em que ampliaria políticas sociais.

Os acenos ao empresariado, mas não só eles, reavivaram ao longo da campanha comparações com Lula, das quais Boulos buscou se desvencilhar, embora reafirme sua admiração e amizade com o ex-presidente.

A trajetória do líder do MTST na política se cruza com os caminhos de Lula e do PT. Depois de estar à frente de protestos contra a Copa do Mundo de 2014, Boulos participou das manifestações contra o impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT) entre 2015 e 2016.

Também esteve à frente de vigílias contra a prisão de Lula e foi mereceu agradecimento especial do ex-presidente antes de se entregar.

De convocação em convocação, foi ampliando sua voz nas ruas e atraindo setores da juventude progressista, da qual se aproximou com um forte trabalho em redes sociais.

Com a controversa escolha do ex-deputado federal Jilmar Tatto para representar o partido na disputa pela Prefeitura de São Paulo, o psolista eclipsou o adversário. Encerrado o primeiro turno, com 8,65% dos votos e a sexta colocação, pior resultado para a legenda em eleições para prefeito de São Paulo, o PT embarcou imediatamente na campanha do PSOL.

Na ocasião, a narrativa difundida por petistas se assemelhou à usada agora para falar de Boulos: afirmaram que seu candidato poderia até ter sido derrotado, mas o campo da esquerda saiu vitorioso com a classificação do "adversário aliado" para o segundo turno. Perder, por essa ótica, nem sempre é perder.

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