O atual cenário político do Paraná está sendo assolado por uma onda de moralidade que arrasta autoridades investigadas por denúncias, suspeitas e comprovação de desvios de dinheiro público. A atuação em quadrilha para o roubo sistemático do erário e lavagem de dinheiro em grande profusão é um fenônemo preocupante. Há mais de 200 administradores públicos municipais no Paraná sob investigação pelo Ministério Público (MP) nos 399 municípios. São prefeitos e auxiliares pilhados por inquéritos.
O caso mais rumoroso é o de Antonio Belinati (PFL), afastado três vezes pela Justiça e cassado pela Câmara de Londrina por envolvimento em desvios que podem ir a US$ 100 milhões.
As ações contra Belinati constituem apenas a ponta do iceberg de uma realidade que envolve um amplo leque de crimes contra a administração pública, formado por licitações frias, pequenas negociatas para promoção pessoais, grandes negócios, compra de votos e distribuição irregular de cestas básicas, cadeiras de roda, medicamentos e dentaduras.
Até agora, o Ministério Público, a Polícia Federal e todo o sistema de Justiça, provocados pela sociedade organizada, não conseguiram deter a torrente de ilegalidades, mas este é o clima dominante às vésperas das eleições municipais.
Mesmo assim, este quadro, de modo geral não vai influenciar os eleitores que elegerão prefeitos e vereadores do Estado no próximo domingo. A conclusão é dos sociólogos Maria Lucia Victor Barbosa e Ricardo Costa de Oliveira, e dos historiadores Marco Aurélio Monteiro Pereira e Valdir Gregory. Para eles, o valor do voto é muito grande, mas ainda é muito cedo para que o eleitor possa traduzir em ação uma resposta para a situação.
Convidados pela Folha, os quatro participaram de um debate sobre o momento político nas várias regiões do Estado e o comportamento do eleitor paranaense diante de uma eleição que ocorrem em clima de denúncias fortes e propostas moralizantes. Cada participante representou diferentes regiões do Estado (Curitiba, Campos Gerais, Norte e Oeste-Sudoeste). O encontro, mediado por três jornalistas, ocorreu na última terça-feira, na Regional da Folha em Curitiba.
‘‘Os movimentos de moralização não surgem da população em geral. Mas daqueles setores da sociedade que têm o que perder na sua relação com o Estado’’, criticou Monteiro, professor de Teoria da História e História Contemporânea na Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). Na opinião dele, um movimento moralizador ‘‘é positivo’’, mas é ‘‘assustador’’ sobrepor os debates dos problemas das cidades e do Estado à discussão sobre a honestidade dos políticos.
Maria Lucia, no entanto, apresentou uma análise mais positiva – porém não menos crítica – em relação ao grau de influência no eleitorado dos movimentos em prol da ‘‘moral e dos bons costumes’’ dos políticos. ‘‘O processo de amadurecimento é bem visível, mas sem aprofundamento ideológico’’, lamentou. ‘‘Os eleitores evoluíram; os políticos, não’’, alfinetou a prefessora da Universidade Norte do Paraná (Unopar), instituição particular sediada em Londrina.
Gregory, que é professor da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioste), em Marechal Cândido Rondon, afirmou que o processo de moralização política ainda é ‘‘lento’’, e que a mídia acabou provocando uma ‘‘situação complexa’’ aos políticos. ‘‘A relação com as lideranças políticas se dá pela mídia, o que as deixou mais distantes da população. Antes, essa relação era pessoal.’’
Para Gregory, a imprensa também deu à cobertura dos escândalos de corrupação um enredo ‘‘semelhante ao de uma novela’’. ‘‘O político também é ídolo. E a eleição é um pouco de diversão para a sociedade, um momento lúdico.’’
Menos otimista, Ricardo Oliveira afirmou que, no Brasil, os movimentos pela moralidade política são cíclicos e vêm desde a época da Proclamação da República (1889). ‘‘A criação da União Democráriva Nacional (UDN), por exemplo, aconteceu durante uma forte onda de moralidade na década de 50. Não acredito em ondas de moralidade’’, salientou o professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR), que está concluindo um livro sobre as dinastias na política paranaense.
Outros temas debatidos pelos estudiosos foram a sobrevivência das velhas práticas assistencialistas e a compra de votos nesta eleição, além da sonhada possibilidade de costura de uma identidade política paranaense, num Estado historicamente marcado pela diversidade regional e pela forte
presença de imigrantes.

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