A força, o poder, o significado e O VALOR DO VOTO
PUBLICAÇÃO
sábado, 23 de setembro de 2000
Egidio Brizola,Rubens Burigo Neto e Valmir Denardin De Curitiba 
O atual cenário político do Paraná está sendo assolado por uma onda de moralidade que arrasta autoridades investigadas por denúncias, suspeitas e comprovação de desvios de dinheiro público. A atuação em quadrilha para o roubo sistemático do erário e lavagem de dinheiro em grande profusão é um fenônemo preocupante. Há mais de 200 administradores públicos municipais no Paraná sob investigação pelo Ministério Público (MP) nos 399 municípios. São prefeitos e auxiliares pilhados por inquéritos.
O caso mais rumoroso é o de Antonio Belinati (PFL), afastado três vezes pela Justiça e cassado pela Câmara de Londrina por envolvimento em desvios que podem ir a US$ 100 milhões.
As ações contra Belinati constituem apenas a ponta do iceberg de uma realidade que envolve um amplo leque de crimes contra a administração pública, formado por licitações frias, pequenas negociatas para promoção pessoais, grandes negócios, compra de votos e distribuição irregular de cestas básicas, cadeiras de roda, medicamentos e dentaduras.
Até agora, o Ministério Público, a Polícia Federal e todo o sistema de Justiça, provocados pela sociedade organizada, não conseguiram deter a torrente de ilegalidades, mas este é o clima dominante às vésperas das eleições municipais.
Mesmo assim, este quadro, de modo geral não vai influenciar os eleitores que elegerão prefeitos e vereadores do Estado no próximo domingo. A conclusão é dos sociólogos Maria Lucia Victor Barbosa e Ricardo Costa de Oliveira, e dos historiadores Marco Aurélio Monteiro Pereira e Valdir Gregory. Para eles, o valor do voto é muito grande, mas ainda é muito cedo para que o eleitor possa traduzir em ação uma resposta para a situação.
Convidados pela Folha, os quatro participaram de um debate sobre o momento político nas várias regiões do Estado e o comportamento do eleitor paranaense diante de uma eleição que ocorrem em clima de denúncias fortes e propostas moralizantes. Cada participante representou diferentes regiões do Estado (Curitiba, Campos Gerais, Norte e Oeste-Sudoeste). O encontro, mediado por três jornalistas, ocorreu na última terça-feira, na Regional da Folha em Curitiba.
Os movimentos de moralização não surgem da população em geral. Mas daqueles setores da sociedade que têm o que perder na sua relação com o Estado, criticou Monteiro, professor de Teoria da História e História Contemporânea na Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). Na opinião dele, um movimento moralizador é positivo, mas é assustador sobrepor os debates dos problemas das cidades e do Estado à discussão sobre a honestidade dos políticos.
Maria Lucia, no entanto, apresentou uma análise mais positiva porém não menos crítica em relação ao grau de influência no eleitorado dos movimentos em prol da moral e dos bons costumes dos políticos. O processo de amadurecimento é bem visível, mas sem aprofundamento ideológico, lamentou. Os eleitores evoluíram; os políticos, não, alfinetou a prefessora da Universidade Norte do Paraná (Unopar), instituição particular sediada em Londrina.
Gregory, que é professor da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioste), em Marechal Cândido Rondon, afirmou que o processo de moralização política ainda é lento, e que a mídia acabou provocando uma situação complexa aos políticos. A relação com as lideranças políticas se dá pela mídia, o que as deixou mais distantes da população. Antes, essa relação era pessoal.
Para Gregory, a imprensa também deu à cobertura dos escândalos de corrupação um enredo semelhante ao de uma novela. O político também é ídolo. E a eleição é um pouco de diversão para a sociedade, um momento lúdico.
Menos otimista, Ricardo Oliveira afirmou que, no Brasil, os movimentos pela moralidade política são cíclicos e vêm desde a época da Proclamação da República (1889). A criação da União Democráriva Nacional (UDN), por exemplo, aconteceu durante uma forte onda de moralidade na década de 50. Não acredito em ondas de moralidade, salientou o professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR), que está concluindo um livro sobre as dinastias na política paranaense.
Outros temas debatidos pelos estudiosos foram a sobrevivência das velhas práticas assistencialistas e a compra de votos nesta eleição, além da sonhada possibilidade de costura de uma identidade política paranaense, num Estado historicamente marcado pela diversidade regional e pela forte
presença de imigrantes.


