São Paulo- No conjunto das cinco eleições presidenciais realizadas no País desde o início da redemocratização, a menos politizada foi a deste ano, na opinião do sociólogo e doutor em geografia humana Demétrio Magnoli. Na entrevista abaixo ele observa que, ao contrário dos anos anteriores, os grandes temas nacionais e os projetos de governo ficaram fora dos debates. Mesmo assim, a democracia avançou e o sinal mais evidente disso foi a demonstração dos eleitores, de todas as regiões do País, de apreço à cidadania. Mesmo pessimista em relação a um provável segundo mandato de Luiz Inácio Lula da Silva, cuja proposta de governo considera ''salvacionista'', o sociólogo manifesta otimismo em relação ao avanço democrático: ''O Brasil resiste ao salvacionismo. Isso aqui não é a Venezuela, nem uma república da banana.''

Como o senhor vê o processo eleitoral que termina hoje?

O primeiro turno foi um plebiscito sobre o governo Lula - e ele saiu derrotado, com o resultado de 52% a 48%. No segundo turno, segundo as pesquisas, os que votaram contra Lula no primeiro não se viram representados pela opção Geraldo Alckmin, o que revela que sua campanha não conseguiu apresentar um visão do País e do seu futuro claramente distinta da visão de Lula. Nesse sentido o País perdeu a oportunidade de discutir a si próprio, de conectar a discussão sobre os escândalos do governo Lula a uma discussão mais geral sobre o lugar do Estado, da sociedade, das políticas públicas.

Nas eleições anteriores houve esse debate?

Em 1989, apesar de toda a barafunda de marketing que houve, estava em discussão se o Brasil permaneceria vinculado a um modelo de economia fechada ou se ele se abriria para a globalização. Quando Fernando Collor de Mello falava nas carroças brasileiras, era o jeito populista de direita de apresentar uma agenda de abertura. Em 1994 estava em discussão uma grande prioridade nacional, que era acabar com a inflação, além da continuidade do processo de liberalização econômica. Fernando Henrique nunca escondeu que sua plataforma falava de abertura e privatizações. Em 2002, a eleição de Lula fez parte de um processo latino-americano de reversão de expectativas em relação à globalização. Em todas as eleições da redemocratização os grandes temas nacionais estiveram em debate e o eleitor fez a sua opção. A eleição atual foi a menos politizada desde o início da redemocratização.

A culpa foi de quem?

Da oposição. Lula não tinha interesse nenhum em discutir seu governo, tanto que falou o tempo todo de Fernando Henrique. Alckmin, que deveria politizar o debate, não defendeu sequer o que seu partido fez em oito anos de poder.


A democracia sai ganhando ou perdendo nesse processo?

A democracia brasileira tem produzido resultados sociais positivos que só são negados por cegos ou pessoas mal intencionadas. Embora o governo Lula se apresente como promotor inicial dos avanços sociais no Brasil, as estatísticas mostram que desde 1992 a desigualdade diminui, a pobreza diminui e a inclusão social aumenta.

A inclusão social é um dos temas mais fortes no discurso de Lula.

O governo Lula discursa como se o País tivesse entrado num processo de queda após o regime militar, que só foi interrompido com a chegada dele ao poder. É o discurso típico de desvalorização da democracia, típico de um projeto salvacionista, de salvador da pátria. Ele não reconhece nada de virtuoso antes dele.

O Brasil sai dessas eleições dividido entre ricos e pobres?

É uma avaliação superficial. A fonte dos votos do Lula no Norte e Nordeste são, evidentemente, os programas sociais, puxados pelo Bolsa-Família. Embora eu considere esse programa assistencialista, para a população dessas regiões significa a possibilidade de se livrar do mandonismo local, um fenômeno histórico e estrutural.


E os votos do Sul?

O Centro-Sul votou rejeitando os escândalos do governo, os atentados às instituições, os crimes de Estado. Também é um voto na cidadania. Essa é a idéia-chave da política no Brasil que Alckmin não soube trabalhar.

Embora os temas sociais tenham sido relegados no debate eleitoral, existe uma agenda pendente, que inclui desde as questões agrárias ao tema das cotas raciais nas universidades. O senhor acha que as pressões da sociedade tendem a aumentar sobre o governo?

Não. A sociedade se desorganizou bastante porque, em quatro anos de poder, Lula cooptou os movimentos e as organizações sociais, transformando-os em braços do executivo. A CUT hoje parece mais um braço do Planalto do que uma central sindical independente. O MST depende fundamentalmente de verbas públicas. A UNE é quase uma extensão do ministério da propaganda do Lula.
A discussão de cotas raciais foi inventada pelo Estado a partir da cooptação de ONGs que funcionam como braços da Secretaria da Igualdade Racial, com recursos públicos e entidades internacionais.

Qual deve ser a atitude da oposição diante de um eventual segundo mandato de Lula?

Existem dois caminhos a evitar. Em primeiro lugar, não se deve ficar procurando a todo custo argumentos para o impeachment - o que não significa bloquear as investigações. Se a oposição ficar martelando a idéia do impeachment, vai afastar-se da discussão sobre o Brasil, que interessa aos eleitores

E Lula? Como acha que vai agir, se reeleito?

Sua vitória não representará um cheque em branco para prosseguir sua política salvacionista. No primeiro mandato ele foi eleito como uma consagração e tinha um cheque em branco. Agora não tem mais.

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