A DESPEDIDA Os principais trechos do discurso de Arruda
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quinta-feira, 24 de maio de 2001
Agência Folha De Brasília 
Senhor presidente, senhores membros da Mesa do Senado, senhoras e senhores senadores. Não roubei. Não matei. Não desviei dinheiro público. Mas cometi um grande erro. Talvez o maior de minha vida. No primeiro momento, confesso que não percebi sua extensão. Tentei negá-lo, e esse foi outro grave erro. Estou pagando caro por isso. Um preço muito alto. Mas talvez o preço maior ainda não tenha sido totalmente saldado.
Em meio a esse pesadelo em que se transformou a minha vida, uma das coisas que mais doem é a certeza da frustração dos mais de 300 mil habitantes de Brasília que depositaram seu voto de confiança em mim (...)
Trabalhei sempre pelo PSDB, pelo governo e pelo país sem esperar retorno. Os compromissos que assumi, aceitando uma das mais ingratas das funções políticas, a de líder do governo, eu os mantenho, porque os assumi comigo mesmo, porque nascem do caráter e não exigem reciprocidade de comportamento (..) Mas, agora, não posso continuar. Tenho três boas razões para isso.
A primeira, é que houve um pré-julgamento e eu estou liminarmente condenado. Há uma pena descabida, máxima, cruel, inapelável. O processo de linchamento é explícito e covarde, porque de cartas marcadas. Os lances desse jogo viciado por interesses pessoais, pleno de hipocrisias e mentiras, foram mostrados ontem (anteontem) para todo o país, em tempo real.
A violência desse pré-julgamento, da interpretação regimental a serviço da sentença previamente concebida, não é uma ato apenas contra mim, mas contra as instituições democráticas desse país, até porque banaliza um dos dispositivos mais forte da Carta Constitucional, ao usá-lo para uma vendeta política. E o tempo mostrará o erro que foi cometido ontem nesta Casa.
Ato que atropela a razão, atropela as leis e o sentimento de justiça e descamba para a execução sumária, como se fosse o Conselho de Ética um tribunal de exceção.
Ato que busca concentrar toda a justa indignação popular numa tal lista de votação, na esperança vã de que os verdadeiros problemas do país, o desrespeito à atividade pública, o denuncismo irresponsável, a corrupção e os desvios de recursos públicos, repetidos e impunes, sejam relegados a segundo plano.
Ato de expiação de toda a culpa acumulada, uma catarse que deixou a razão de lado, um festim que substitui o denuncismo e a troca desrespeitosa de acusações e insultos, que conspurcam a consciência nacional. E estou pagando por isso: estava no lugar errado, na hora errada.
Mas volto a dizer: não roubei, não matei, não desviei dinheiro público.
Ontem eu afirmei que não queria fugir ao julgamento. Mas desde que o processo fosse justo, que não ignorasse as regras da Justiça, que não se deixasse seduzir pelos holofotes, que não se deixasse contaminar por influências externas ou interesses espúrios.
A sentença, no entanto, já está prolatada. Resta apenas criar o cenário, o enredo, que lhe sirvam de pano de fundo. Poderia coonestar a farsa, na esperança do milagre da sensatez? Ou ficar na expectativa de um acordo de cúpula, na Mesa, que poderia preservar meu mandato a custa de conchavos políticos? Não, senhores senadores, dessa forma esse mandato, de que tanto me orgulho, não me interessa (...)
Não desejo submeter os nobres senadores a um constrangimento. Prefiro desobrigá-los de um julgamento penoso que, ou será injusto comigo se decidirem pela pena máxima para uma falha regimental , ou será injusto com cada um dos colegas, pelo julgamento impiedoso de parte ponderável da mídia (...)
Serei enternamete grato, como não esquecerei jamais nenhum dos gestos e mensagens de apoio e compreensão que tenho recebido. Em particular de Itajubá, cidade mineira onde nasci, e de Brasília, cidade que em elegeu.
Disse que tenho três razões para continuar. A segunda e mais importante é que Brasília e sua população não merecem ficar com um senador a menos. O processo que se avizinha seria longo, penoso. E, nesse período, o Distrito Federal ficaria desfalcado de um senador, já que eu não teria condições de exercer a plenitude de meu mandato.
Para evitar que isso aconteça, vai assumir o meu primeiro suplente, o doutor Lindberg Aziz Cury, que reúne história de vida e competência para ocupar essa cadeira e defender o Distrito Federal no Senado.
A última razão é de foro íntimo. O balanço de meus acertos e erros, nestas circunstâncias, deve ser e será feito pela população de Brasília. Po respeito a Brasília, por respeito à sua população, por respeito à representação popular, deixo esta Casa para ser julgado por quem, até por preceito constitucional, tem vontade soberana. Renuncio, portanto, ao meu mandato, senhores senadores. Tenho fé em Deus.


