Administrando há meses os conflitos entre os partidos aliados, o Palácio do Planalto admitiu, pela primeira vez, que o confronto entre PFL, PMDB e PSDB poderá empurrar o País para uma crise de governabilidade. Disposto a não permitir que isso ocorra, o governo avisa que não admitirá que aliados apóiem a CPI articulada pela oposição. ‘‘Quem assinar a CPI está se colocando contra o governo e haverá consequências disso’’, avisou o secretário-geral da Presidência, ministro Aloysio Nunes Ferreira. ‘‘A crise é grave e preocupa o governo.’’
Em entrevista à Agência Estado, o ministro descartou a hipótese de criação da comissão – que ele chama de ‘‘CPI da lista telefônica’’ – e deixou claro que o governo não perdoará novas dissidências na bancada governista. Cauteloso, o ministro fez afagos ao PMDB, mas evitou defender o presidente do Senado, Jader Barbalho (PA), das acusações de corrupção. Indagado se o governo se sente confortável com o apoio de Jader, Aloysio fez um longo silêncio e desconversou: ‘‘O presidente trata com os partidos institucionalmente, para ele não existe o PMDB deste ou daquele.’’ Leia os principais trechos da entrevista:
Crise: ‘‘Não vou dizer que não tem crise, mas se você observar a imprensa nos últimos dias vai ver que se tratou com amplitude de outros temas, como a plataforma da Petrobras e a crise na Argentina. Você não tem uma crise política no Brasil hoje, você tem o Brasil funcionando, mas há um foco de tensão na vida parlamentar que se pode transformar numa crise política. A tensão se transforma em crise quando afeta a governabilidade, ou seja, compromete as respostas que o sistema político tem de dar aos problemas do País.’’
CPI: ‘‘Não há um fato sequer, entre todos os que foram relacionados, que não tenha sido objeto de investigação e há alguns de condenação. O nosso problema é que uma CPI concebida desta maneira, como arma de guerra política, pode comprometer o Congresso e afetar o governo, pois parte da solução dos problemas que nós temos depende de resposta legislativa.’’
Retaliação: ‘‘Quem assinar o requerimento para a CPI está se colocando contra o governo e haverá consequências disso. O tratamento do governo não é pôr cargo nem tirar cargo, o governo está discutindo politicamente com seus aliados para mostrar que esta CPI é facciosa, não quer investigar coisa nenhuma, apenas aguçar conflitos no Congresso com risco de transformá-los em crise, o que seria nefasto para o País.’’
Consequências: ‘‘A consequência mais dramática é para o próprio Congresso. Se você instaura uma CPI com base não num requerimento, mas numa lista telefônica – sem o menor resquício do fato determinado exigido pela Constituição –, a atividade do Congresso vai escapar do controle institucional dos seus líderes e dos partidos. Vai ser pautada pelo sensacionalismo de setores da mídia, pelos boateiros, pelos denunciadores anônimos em busca de alguns minutos de fama, e vai deixar de cumprir um papel que o povo espera que ele cumpra.’’
Guerra: ‘‘Eu estou preocupado, porque essa crise de acomodação dos grandes partidos está se transformando num pano de fundo para conflitos envolvendo personalidades e facções no Congresso e esse conflito está se desenvolvendo sem regras, sem limites, sem princípios. Eu estou vendo uma guerra muito próxima do ajuste de contas.’’
PMDB: ‘‘Não houve do senador Jader Barbalho nem do PMDB nenhum pedido de atestado (de idoneidade) ao governo. O que Jader quis foi ter conhecimento das investigações que ocorriam no Banco Central em relação a ele, o que é muito natural.’’
FHC e aliados: ‘‘Queremos manter a aliança, com todos os problemas que ela apresenta, e vamos nos esforçar para isso. O presidente está convencido de que para governar um país da complexidade do nosso é preciso uma base política muito ampla.’’

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