O início do ano político de Londrina começa como terminou o de 2008: novidades a todo o momento, indefinição a médio e longo prazos e a expectativa de uma gestão mais presente na vida do cidadão. Na semana que passou, o prefeito interino Padre Roque (PTB) consolidou seu secretariado e fez da conservação da cidade sua principal bandeira.
O primeiro nome confirmado em seu governo foi o de Tercílio Turini (PPS). Homem-chave da administração, auxiliar direto de Padre Roque e uma espécie de gerente do secretariado, ele já parecia bastante à vontade no cargo ao conceder essa entrevista à FOLHA na tarde de sexta-feira.
O médico, ex-superintendente do Hospital Universitário (HU), ex-diretor da 17 Regional de Saúde e vereador por 16 anos, Tercílio Turini gosta de frisar que, aos 64 anos, é um dos mais velhos homens públicos de Londrina com atividade ininterrupta. A seguir, suas principais declarações:
FOLHA - A administração já tem um perfil?
Tercílio Turini - Quando um prefeito é eleito em condições normais, ele tem prazo de mais de dois meses para discutir a montagem de seu secretariado. O Padre Roque foi eleito prefeito do dia 1º para o dia 2 e no dia 3 já tinha que começar a montar a equipe - isso caiu num final de semana. Eu acho que, hoje, o perfil é o seguinte: a sociedade já aprova a montagem da equipe do governo. É um perfil adequado para a transição.
O senhor foi convidado para secretário quando Padre Roque ainda estava na disputa pela presidência da Câmara?
Eu estava me preparando para retornar ao regime normal de trabalho no HU e no dia 1º o Padre Roque me convidou. Fui o primeiro nome. Pelo momento político especial de Londrina, aceitei. Assim como eu, muitas pessoas estão dando sua contribuição. Acho que hoje a sociedade já está mais tranquila. Até o dia da posse, existia aquela apreensão, e hoje a cidade está vendo o prefeito atuar e acredita que nesse período quem estiver à frente das pastas vai dar a resposta que a sociedade espera.
A mudança de posicionamento de alguns vereadores, inclusive de Padre Roque, nas eleições para presidência da Câmara, e a formação do secretariado com intensa participação partidária, levantaram críticas de fisiologismo - o vereador Marcelo Belinati disse que houve um ''banquete dos derrotados''. Como o senhor vê isso?
Acho que aquele dia 1º passou. A presidência da Câmara sempre envolve uma disputa grande e aumentou com o ingrediente de que o presidente seria o prefeito. Os partidos atuaram sim, já que hoje existe a questão da fidelidade, para influenciar a decisão.
Não se extrapolou o conceito de fidelidade partidária? E onde fica a fidelidade quando o próprio partido não cumpre o que assinou, como foi o PTB?
Se eu fosse vereador, com a minha experiência, não teria assinado nenhum documento. Com relação à fidelidade partidária, acho que em situações maiores, o partido pode fechar questão. Agora, com relação ao partido que assinou, eu não participei das negociações e não sei que tipo de entendimento foi feito anteriormente. E para completar, sobre Marcelo Belinati: ele é um vereador experiente, sempre foi muito educado, e acho que disse uma frase infeliz. Com a importância que ele tem, creio que deve - e vai - contribuir com a cidade.
Qual o papel de Antonio Belinati na política londrinense - um recordista de votos com muita dificuldade para governar?
Acho que o Belinati é um fenômeno da política. Ele tem um eleitorado enorme e um carisma extraordinário. Isso merece um estudo à parte. Mas, além disso, é um deputado eleito e nós precisamos de todos os deputados para abrir canais, ajudar Londrina e viabilizar pleitos da cidade.
Pessoalmente, o senhor é favorável a se aguardar o resultado do recurso de Belinati ao STF ou a convocar a votação de imediato?
Eu acho que precisamos resolver essa indefinição. No âmbito da Justiça Eleitoral, a questão está esgotada. E o próprio TSE já enviou circular aos TREs informando que onde precisar de nova eleição, ela já pode ser providenciada. Se tivesse uma expectativa de que em três ou quatro meses, fosse julgado o recurso, seria prudente aguardar. Mas, não se sabe se será julgado daqui a seis meses, um ano ou dois anos. Então, acredito que o TRE vai marcar um novo pleito quando o pleno do TRE se reunir, a partir do próximo dia 20 - e eu concordo com essa tese. E quem ganhar a eleição vai correr o risco de ser empossado e, se em seis meses o Belinati ganhar o recurso, arcar com o prejuízo. A minha expectativa é de que no final de março se possa realizar a eleição.
Qual o posicionamento da gestão Padre Roque, compartilhada pelo PTB, PSDB, PT, PSB, PPS e PMDB, no processo eleitoral?
Pessoalmente, já me posicionei. Acho que, em função de ter assumido um cargo da importância que tem a Secretaria de Governo, não vou fazer campanha nem para esse nem para aquele candidato. E mais do que isso: o próprio prefeito já disse que a administração vai manter neutralidade e fiscalizar para que não seja usada, de maneira nenhuma, para favorecer qualquer candidato.
Os secretários vão poder subir em palanque?
Isso vai depender do prefeito. Ele deve dar uma orientação de que provavelmente não. Eu, pessoalmente, não vou.
Voltando à administração. Na última semana, Padre Roque foi identificado como alguém meio inconstante, que diz uma coisa e pode recuar no dia seguinte. Isso é fruto de inexperiência política? E para o senhor, que é um gerente do governo, fica difícil correr atrás disso tudo?
Eu acho que a experiência está sendo muito interessante. Até me surpreendi positivamente com o Padre Roque. Ele tem uma experiência de vida muito grande. Ainda não tem experiência política porque está ingressando na vida pública agora. Nesta semana, muitas coisas já aconteceram. Além de definir uma série de secretários e diretores, já tivemos contato com a Acil, com os comandantes das polícias, tivemos um posicionamento sobre a tarifa do transporte coletivo, e vamos continuar em todos os segmentos necessários.
A gestão Nedson terminou com uma fama de desleixo com o dia a dia da cidade? Ao pregar uma administração voltada à conservação das vias, da limpeza pública, a atual gestão está ocupando esse espaço político?
Claro. E não só na questão da limpeza. Acho que há muitos desafios na própria saúde pública e precisamos dar respostas. O objetivo e a orientação é que, mesmo que seja uma administração por três ou quatro meses, os órgãos e secretarias funcionem plenamente e nesse período façam o melhor possível e avancem. Não vamos fazer coisas que possam comprometer a futura gestão, mas temos a responsabilidade, não podemos ser negligentes de fazer só o feijão com arroz.

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