A cavalo, João Mariano vai às urnas
PUBLICAÇÃO
domingo, 01 de outubro de 2000
Walter Ogama De Londrina 
O jovem caingangue João Mariano, de 20 anos, foi a cavalo até a escola do distrito de São João do Pinhal, em São Jerônimo da Serra (95 km ao sul de Cornélio Procópio), para usar pela primeira vez em sua vida uma urna eletrônica. Não demorou um minuto para digitar e confirmar os números de seus candidatos. Comentários, do lado de fora da seção eleitoral, eram de que ele havia errado. Impossível ele ter acertado. Foi muito rápido, diziam algumas pessoas.
Mas João Mariano, pouco depois, garantiu que havia votado certo. Ele é da Reserva Indígena Barão de Antonina uma das duas que existem em São Jerônimo da Serra onde vivem cerca de 60 famílias caingangues. O jovem não estava na reserva nos dias em que a Justiça Eleitoral levou até o local uma urna eletrônica para treinar os índios a votar. Mas disse que aprendeu a digitar os números e a confirmação assistindo as propagandas institucionais do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) pela televisão. É só apertar o número certo do candidato, esperar aparecer a foto e confirmar, explicou.
Mas tão importante quanto saber votar pela máquina, conforme João Mariano, é saber escolher o candidato certo. Ele disse que os indígenas da Barão de Antonina participam das eleições porque precisam ajudar a melhorar a situação da cidade e da própria reserva. Ele, que estudou só até o primeiro ano do 1º grau, é filho de um índio que já foi professor na Barão. E reclamou que só não estudou mais porque, quando criança, professores deslocados para lecionar na reserva não recebiam e abandonavam a sala de aula da localidade. Esta seria uma situação a ser resolvida, conforme Mariano.
João Maria Juvêncio, de 42 anos, também da Barão de Antonina, vestiu uma camisa do Grêmio de Porto Alegre, ajeitou um óculos de sol do formato de um Ray Ban tradicional e, por baixo, usou um calção vermelho. Também votou pela primeira vez na urna eletrônica e disse que não teve problemas. Tem de participar para poder resolver os problemas, disse Juvêncio, que após escolher os seus candidatos permaneceu nas proximidades, acompanhando o movimento excepcional do distrito de São João do Pinhal no domingo de eleições. Normalmente, a comunidade não passa de um ponto silencioso cercado de uma lado pela reserva e de outros por propriedades rurais.
Só não pode votar com rapidez, para depois espionar o movimento da cidade, um grupo de caingangues que vota em São Jerônimo da Serra. Junto com outros eleitores rurais do distrito, os caingangues, entre eles o vice-cacique Artur Amaral, subiam para a cidade por volta das 14 horas em um ônibus autorizado pela Justiça Eleitoral. Ainda na estrada de terra, longe do destino final, o veículo apresentou problema e teve que ser encostado. Até que outros carros viessem para transportar os eleitores, Artur Amaral e sua turma descansaram na mata do acostamento, sob as árvores.
Segundo ele, a Barão de Antonina tem cerca de 120 eleitores e na comunidade cada caingangue teve a liberdade de escolher o candidato de sua preferência. O voto é livre, disse Artur. É claro que o índio está ciente de que, para prefeito, por exemplo, tem que escolher aquele que tem condição de fazer mais e melhor para a comunidade, acrescentou. Segundo Artur, os caingangues da Barão de Antonina não fecharam apoio para um candidato índio de São Jerônimo da Serra. O candidato é de outra reserva, onde vivem os guaranis.


