Curitiba – A lavagem de dinheiro por meio de aquisição de obras artísticas não é um fato novo no mundo do crime no Brasil, mas a quantidade e o valor de quadros e esculturas apreendidas no âmbito da Lava Jato têm surpreendido inclusive os investigadores que atuam no caso. Desde a deflagração da operação, em março do ano passado, já foram recolhidas 268 obras de arte. Deste total, 248 já estão sob a guarda do Museu Oscar Niemeyer (MON), em Curitiba. Outras 20, apreendidas durante a 17ª fase, serão encaminhadas ao local ainda nesta semana.
"Não era uma prática muito comum no País, pelo menos não tínhamos um histórico de aquisição de obras de arte para lavagem de dinheiro. A única grande apreensão que me lembro foi na época do caso envolvendo o Banco Santos (que decretou falência em 2005, deixando muitos credores), mas o investigado (ex-banqueiro Edemar Cid Ferreira) era colecionador. Agora a gente tem uma doleira, operadores e agentes públicos que podemos dizer que não são colecionadores", afirmou o delegado da PF que atua na Lava Jato, Márcio Adriano Anselmo.
A aquisição de obras artísticas, segundo os investigadores, é um mecanismo para se lavar o dinheiro vindo do esquema criminoso de fraude, corrupção, desvio e lavagem de dinheiro na Petrobras. As telas e esculturas foram apreendidas nas residências e endereços ligados à doleira Nelma Penasso Kodama, ao empresário Zwi Skornicki (apontado como operador do esquema), a Milton Pascowitch (também operador) e ao ex-diretor de Serviços da estatal Renato de Souza Duque.
Em depoimento prestado dentro do acordo fechado com o Ministério Público Federal (MPF), Pascowitch mencionou que comprou uma obra do pintor Guignard por US$ 380 mil para Duque. A obra, conforme o depoimento, foi escolhida pelo ex-diretor da Petrobras. Pascowitch afirmou que o dinheiro para a compra da obra foi obtido a partir de contrato entre a empreiteira Engevix e a Jamp Engenheiros Associados, de sua propriedade, referente à construção de cascos de plataformas petrolíferas, realizada pela Engevix junto à Petrobras. Outra tela apreendida nesta última fase da Lava Jato, de autoria de Alfredo Volpi, teria sido inicialmente avaliada em torno de R$ 400 mil, e há ainda a compra de uma escultura de Frans Krajcberg, no valor de R$ 220 mil.
"Nesta fase da Lava Jato identificamos que os investigados tinham retirado ou mandado retirar algumas obras de arte de suas residências e as encaminharam para depósitos de galerias, numa tentativa de despistar os investigadores. Mas por meio de certificado e notas fiscais apreendidas conseguimos encontrar o produto da lavagem de dinheiro", destacou Márcio.

ARTISTAS RENOMADOS

As obras apreendidas na Lava Jato são de artistas renomados como Amílcar de Castro, Salvador Dalí, Pedro Motta, Vik Muniz, Miguel Rio Branco, Sérgio Sister, Romero Britto, Di Cavalcanti, Gerardenghi, Gomide, Heitor dos Prazeres, Iberê Camargo, Mario Gruber, entre outros. O MON ficará responsável pelo material até que a Justiça Federal defina um destino para o acervo. Assim que a PF entrega as obras para o museu, os quadros e esculturas vão para o Setor de Acervo e Conservação. Lá, as obras passam por uma espécie de quarentena para que os técnicos tenham certeza de que não há nenhuma contaminação por fungo ou bactéria, que podem deteriorar o acervo. As obras ainda passam por uma catalogação e, se necessário, são encaminhadas para restauro. A exposição com essas pinturas e esculturas fica aberta ao público até o mês de novembro.

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