Curitiba – Se a história da Assembleia Legislativa (AL) do Paraná virasse livro, o dia 29 de abril de 2015 certamente ganharia um capítulo à parte. As cenas de selvageria registradas na Praça Nossa Senhora de Salete, na capital, quando a Polícia Militar (PM) reprimiu com violência um protesto de servidores públicos contrários à reforma na previdência, foram, na opinião de deputados ouvidos pela FOLHA, as mais emblemáticas registradas na Casa desde a redemocratização. Pelo menos 200 manifestantes ficaram feridos, atingidos por balas de borracha, sprays de pimenta e gás lacrimogênio. Daquela data em diante, tudo o que aconteceu na AL passou a ser visto de forma diferente, com uma espécie de lente de aumento. A FOLHA relembra esse e outros episódios que marcaram o ano no parlamento.
"Foi um momento crucial na minha vida política. Tive de ter muita responsabilidade para sairmos daquela situação com um resultado que não viesse a macular a história do Poder Legislativo", resumiu o presidente Ademar Traiano (PSDB). Segundo ele, a votação do projeto popular que tentava impedir a privatização da Companhia Paranaense de Energia (Copel), em agosto de 2001, na gestão do então governador Jaime Lerner (PFL), não chega "nem próximo" do que ocorreu durante a greve dos professores de 2015. Há 14 anos, diante da rejeição dos parlamentares, cerca de três mil pessoas, a maioria estudantes, também tomaram as galerias e subiram na mesa da presidência. A ação, contudo, terminou sem grandes incidentes.
O tucano garantiu não se arrepender de ter dado prosseguimento à sessão do dia 29. O cinegrafista Luiz Carlos de Jesus, da TV Band, e o deputado Rasca Rodrigues (PV), que estavam no meio da multidão, foram mordidos por cães da raça pit bull. "Eu procurei agir com racionalidade. Há momentos em que o coração não pode prevalecer, porque eu sou presidente de um poder e estava assegurado por uma decisão jurídica. Claro que eu tenho sensibilidade, sou um ser humano e também sofro. Agora, eu tinha um compromisso de fazer aquele ajuste (fiscal), que hoje os paranaenses estão percebendo que era necessário", argumentou.
Para o líder do governo, Luiz Cláudio Romanelli (PMDB), os "sacrifícios" feitos em 2014 e 2015 surtiram resultado: "Nós sabemos que aumentar receita é a parte mais fácil para o poder público. A mais difícil é reduzir. Obviamente era necessário que todos compreendessem o que estava acontecendo. Agora, o resultado final é muito bom. Conseguimos reduzir a despesa em 11% e, por outro lado, pagar as promoções e progressões dos servidores públicos e o 13º salário antecipado. Se isso que nós fizemos não valeu a pena, o que vale a pena na administração pública, senão colocar a casa em ordem?".
Questionado se ele se referia também aos mais de 200 feridos na manifestação, o peemedebista ponderou. "Claro que não. Isso nunca valeria a pena, foi o ponto absolutamente negativo e que serve de lição; que nunca mais aconteça outro 29 de abril. Todos acompanharam a minha atuação. Sempre foi no sentido de impedir qualquer tipo de violência. Eu entendo que a democracia pressupõe diálogo e nós não vamos construir uma sociedade que seja resolvedora de conflitos através da violência. Ao contrário: é com a cultura da paz que a gente muda o mundo".

mockup