Dia 10 de janeiro de 2008, quinta-feira, 21 horas. A esse horário, vem a público no intervalo de um jogo de futebol, pelo rádio, a notícia de que um vereador estava preso no Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) por flagrante de cobrança de propina contra empresários. Horas depois, Henrique Barros alegava ter, licitamente, a ''quantia irrisória: uns R$ 1,5 mil, R$ 2 mil'' no carro - valor que seria atualizado pelos promotores, na sequência, para R$ 9,9 mil. A partir dali, até meses adiante, o Legislativo londrinense ainda sangraria mais um bom tanto perante a opinião pública com renúncias, cassação, afastamentos e uma coleção de ações cíveis e criminais que marcariam de vez a famigerada 14 Legislatura. Saldo final, sucinto: nove dos 18 parlamentares empossados em janeiro de 2005 acabaram réus em processos nos quais são acusados de formação de quadrilha e concussão.
Dia 28 de outubro, terça-feira, 21h30: dois dias depois do segundo turno entre Antonio Belinati (PP) e Luiz Carlos Hauly (PSDB), o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) decide manter a impugnação da candidatura do ex-prefeito, que concorrera já com decisão semelhante imposta pelo Tribunal em Curitiba, dia 5 de setembro - um mês antes do primeiro turno. Quase dois meses depois, no último dia 19 os ministros confirmaram a decisão, em Brasília, e orientaram a convocação de um novo segundo turno. Até lá, assume a Prefeitura, interinamente, um presidente da Câmara ainda desconhecido.
O ano político de Londrina, em 2008, começou cedo e acaba em meio a um cenário de indefinição e muitas dúvidas sobre o que virá em 2009. Se por um lado a sociedade conheceu supostos esquemas de corrupção que há anos eram comentados apenas nos bastidores, por outro, o ano que termina hoje foi substancialmente negativo, em um balanço final, para a história da cidade. Essa, pelo menos, foi a opinião unânime de três analistas políticos consultados pela FOLHA.
Para o professor de Filosofia Política e Jurídica Bianco Garcia, 2008 foi um resumo de vários aspectos negativos ''somados ao longo dos últimos 20 anos, pelo menos''. ''Há muito sofremos de um vazio de governabilidade, administração inepta e a cidade largada ao descaso. Isso corrói o exercício da cidadania'', avaliou. Na opinião do estudioso, esse panorama se refletiu no que ele chama de ''sensação de apatia'' na auto-estima da cidade. ''Tanto que a renovação de 70% para a próxima Câmara foi apenas numérica; não se refletiu em qualidade. E com nova eleição patra o Executivo, as chances de um continuísmo são grandes.'' Expectativas para 2009? ''Seria muito ingênuo se fosse de grandes mudanças - prefiro ser um pessimista crítico''.
Para a cientista política Luzia Herrmann, 2008 pode ser definido em uma frase: ''Foi negativo para a cidade, claro, teve muita coisa ruim junta vindo à tona''. Nesse âmbito, ela aponta não só a crise no Legislativo - ''estourou uma coisa antiga, que se fala há muito'' - como a própria eleição, pela quarta vez, de Belinati. ''Eis um problema que não poderia ter acontecido. Para 2009? não estou nada otimista. Os processos jurídicos no País são muito lerdos'', pontua.
Já a socióloga Francisca Soares, coordenadora da oscip Obsocil, acredita que o 2008 na política de Londrina foi, no mínimo, atípico. ''Começamos já em janeiro com um cenário muito ruim, na eclosão do escândalo da Câmara, e rodamos quase que a metade do ano em torno dessa questão - tanto que pouca coisa relevante foi discutida, além da crise; o 'bolo' das denúncias só cresceu; projetos importantes para a cidade não foram apresentados, em suma'', lembra. ''E com as eleições ao Executivo tivemos outra situação atípica - estamos à beira da posse sem nenhuma solução plausível. Ou seja: politicamente, Londrina hoje está acéfala'', define.
Indagada se acredita em mudanças para esse quadro, em 2009, a socióloga destaca a necessidade ''urgente de novas lideranças políticas''. ''O que temos até agora são novos políticos já começando a adotar velhas práticas - o que se vê pelas alianças esdrúxulas pela Presidência da Câmara. Se a organização da sociedade civil crescer e exercer sua cidadania nos 365 dias de 2009, isso pode ser revertido - caso contrário, a tendência é repetir velhas práticas.''

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