Das agências
A Polícia Militar anunciou que 1,2 mil soldados farão a segurança hoje no Congresso, Palácio do Planalto, Supremo Tribunal Federal (STF) e prédios na Esplanada dos Ministérios para evitar invasões em protesto contra a reforma da Previdência. A Central Única dos Trabalhadores (CUT) respondeu com a possibilidade de fazer uma passeata com 3 mil militantes, além de manter a tática de tentar invadir a Câmara para pressionar os deputados a votar contra as mudanças no sistema previdenciário. A Câmara tem ainda 280 seguranças próprios; o Senado, 150.
Durante todo o dia de ontem, um grupo de manifestantes da CUT ocupou o local de desembarque do Aeroporto de Brasília. Os sindicalistas atiraram sobre deputados e senadores cópias de notas de 10 reais e moedinhas de 1 e 5 centavos. Eles gritaram frases do tipo ‘‘Deputado vendido, traidor da pátria e dos trabalhadores’’ e agrediram com palavras os políticos que chegavam para votar a reforma da Previdência. Nem o deputado Arnaldo Faria de Sá (PPB-SP), um dos maiores aliados dos sindicalistas no combate à reforma da Previdência, escapou. Ele recebeu uma chuva de moedinhas.
O senador Esperidião Amin (PPB-SC) tentou dialogar. Disse que o Senado não estava votando a reforma da Previdência. De nada adiantou. Os manifestantes da CUT e do PSTU vaiaram Amin e o impediram de fazer o discurso. Por fim, mudaram o cargo que ocupa. De senador, foi rebaixado para deputado. ‘‘Deputado traidor, deputado traidor...’, continuaram a gritar. O deputado Augusto Nardes (PPB-RS), ao perceber o tumulto, tirou o distintivo de parlamentar e passou pela turba, sem ser incomodado. ‘‘Acho que eles estão fazendo gol contra, porque, com esta atitude, deixam os deputados com raiva’’, afirmou.
O presidente da CUT de Brasília, José Zunga, disse que hoje, a exemplo de ontem, haverá nova passeata dos manifestantes pela Esplanada dos Ministérios. ‘‘Esperamos a adesão de 3 mil pessoas.’ Zunga contou que inativos tentarão, mais uma vez, ocupar as dependências da Câmara, a exemplo do que ocorreu na semana passada. Na quinta-feira, depois de muita confusão na comissão especial que votava a reforma da Previdência, a CUT e os militantes invadiram o plenário da Câmara, fato nunca acontecido. Houve violência e quebra-quebra.
Desta vez, a direção da Câmara tomou as providências. Desde anteontem, ninguém sem a credencial do Legislativo consegue entrar no prédio. Para chegar ao plenário, é preciso atravessar de quatro a cinco barreiras. A passagem pelo subsolo foi bloqueada. A porta que leva dos gabinetes parlamentares ao estacionamento não é aberta nem para os deputados. Todos os 280 seguranças foram convocados a trabalhar durante todos os dias, não importando o turno.
A passeata realizada pela CUT ontem reuniu, segundo cálculos da Polícia Militar, 400 trabalhadores. O presidente da entidade, José Zunga, disse que eram 2 mil. Todos os prédios da Esplanada dos Ministérios foram protegidos e, nas proximidades de cada um, a PM pôs um carro, além de tropas a pé. No momento em que os manifestantes passavam perto de um ministério, o administrador do prédio, por orientação da PM, fechava todas as portas.
Os cordões de isolamento montados nas proximidades do Palácio do Planalto funcionaram desta vez, ao contrário do que ocorreu há duas semanas, quando um grupo de manifestantes avançou pela rampa acima. O Batalhão de Choque pôs 250 soldados em frente do Palácio. Eles portavam armas e granadas de gás, e alguns seguravam cães. Nenhum sindicalista ou aposentado teve coragem de se aproximar. De longe, gritavam: ‘‘Fora FHC, traidor, vendilhão.’ O presidente estava no Palácio.
O comandante da Operação Esplanada, coronel Augusto Willeir, disse que 400 soldados ocuparam a Esplanada dos Ministérios e outros 800 ficaram nos quartéis, aguardando ordens. Para hoje, será usado o mesmo esquema. Mas o número de policiais nas ruas será maior. ‘‘Estamos fazendo o policiamento ostensivo porque, ao verem o grande contingente, os manifestantes não fazem besteira’’, disse o coronel. ‘‘Quando os policiais são poucos, eles costumam fazer bobagens e aí, temos de reprimir’’, contou ele.
A tentativa de sindicalistas ligados à Central Única dos Trabalhadores de reverter votos de deputados favoráveis à reforma da Previdência em São Paulo resultou em confronto com uma deputada do PSDB. A tucana Zulaiê Cobra (SP) discutiu com a presidente do Sindicato dos Funcionários Públicos Municipais de São Paulo, Claudete Alves da Silva Souza, 39, atendente de creche, que protestava no aeroporto de Congonhas.
Descontroladas e aos gritos, as duas tiveram de ser apartadas pelo deputado Fernando Zuppo (PDT-SP), que também embarcava para Brasília. ‘‘Sou do PSDB e voto com os trabalhadores. Sou a favor da reforma. Vocês que votam no Maluf (o ex-prefeito Paulo Maluf), não converso’’, disse Zulaiê, ao ser questionada sobre a legitimidade de seu voto. ‘‘No momento em que vocês elegem o Pitta (Celso Pitta, prefeito), como falam em São Paulo? O Maluf consegue tudo de vocês e, quanto mais pobre, mais malufista’’, continuou ela, quando recebeu um apelo de sindicalistas para que pensasse no assunto em nome da população. ‘‘Cresça e apareça. Não converso com gente agressiva. Olha a sua cara.

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