1 ano: dos 20 centavos às greves localizadas
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domingo, 15 de junho de 2014
Mariana Franco Ramos<br> Reportagem Local 
Curitiba - Um ano após multidões terem tomado as ruas de todo o País em protestos contra o aumento dos preços das tarifas de transporte, que logo incorporaram reivindicações mais amplas, como melhorias no serviço público, o perfil dos manifestantes mudou. Segundo especialistas ouvidos pela FOLHA, ainda que impulsionados pelos movimentos de junho de 2013, os novos atos têm sido mais localizados e liderados por grupos específicos.
Para o pesquisador Antonio Flavio Testa, da Universidade de Brasília (UnB), os sindicatos, que já vinham perdendo força nos últimos anos, enfrentam hoje uma crise de identidade. "A sociedade mostrou que pode pressionar o Estado independentemente das representações formais. É um momento interessante do Brasil. Não sei se vai permitir uma nova forma de organização, mas é possível que sim", afirmou.
"O que tivemos foi uma transferência para as ruas da radicalização política que já vínhamos percebendo fora, com a utilização de instituições públicas para fins ideológicos", avaliou o cientista político Emerson Cervi, da Universidade Federal do Paraná (UFPR). De acordo com ele, os sindicatos passaram a ser controlados por representantes de partidos minoritários, que usam aquelas estruturas para defender certas bandeiras, muitas vezes contrárias às da própria categoria.
Como exemplo, Cervi citou a greve dos garis no Rio de Janeiro, em fevereiro, quando houve uma rejeição dos acordos coletivos firmados com as entidades patronais. "Uma das consequências talvez seja o risco dessas organizações sindicais perderem relevância social, o que é muito ruim."
Para o professor de ética e filosofia política Roberto Romano da Silva, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), porém, esse tipo de discordância faz parte da democracia. "Democracia não é regime de consenso. Você pode pensar e agir de forma diferente. Se a coisa não desandar, como nas ações dos black blocs, dos partidos radicais, que usam as manifestações para alvos menores, temos condições de colher bons frutos."
Independentemente das mudanças, os especialistas veem como positivo o legado deixado pelos movimentos. "A sociedade deu o recado de que não é amorfa, tem opinião e vê o que está acontecendo. Aquela hashtag estamos de olho cabe muito bem aí", disse Cervi.
Conforme Silva, a volta às ruas também pode impactar nas eleições de outubro. "O fato de você ter um número imenso de eleitores anunciando que vai votar nulo é preocupante. Outro ponto é a queda drástica da popularidade da presidente (Dilma Rousseff), e que não se manifesta no aumento da preferência pela oposição. A política brasileira precisa se reformular de auto a baixo."


