Agência Folha
Um estudo realizado pelo legista George Sanguinetti contesta a afirmação do professor de filosofia e ex-padre José Antônio Monteiro, 59, de que teria sido submetido a sessões de torturas coordenadas pelo ex-diretor da PF João Batista Campelo, em 1970.
O trabalho, baseado no exame de corpo de delito feito no Instituto Médico Legal do Maranhão na época, afirma que as escoriações que o ex-padre tinha nos pulsos, depois de ter sido preso, foram causadas por algemas, não por tortura em pau-de-arara, como afirma Monteiro. Neste tipo de tortura, a pessoa fica pendurada em um pedaço de madeira, atada pelas mãos e pelos pés.
O estudo foi produzido a pedido de Campelo, após o seu pedido de demissão da Polícia Federal, para dar satisfação à sociedade. O exame das lesões, simples escoriações, permitem conclusões quanto ao objeto que as produziu e as circunstâncias. Apenas a pele sofreu a ação traumática, segundo o exame, diz o legista em seu documento em que afirma que a tortura, como fora descrita por Monteiro, teria necessariamente de ter produzido consequências mais graves à sua integridade física.
De acordo com Sanguinetti, as características das escoriações, a localização e o formato (circulares) comprovam por si só que foram provocadas por algemas. Para o médico, outro ponto que derruba a versão do ex-padre é o fato de que não há nenhuma comprovação técnica quanto a escoriações nas pernas, como Monteiro afirma terem existido para complementar a sua versão de tortura.
Segundo o ex-padre, houve um lapso na perícia, que não registrou em seus autos as escoriações nos pés e hematomas no rosto causados por bofetões durante os interrogatórios. Os autos também não registraram que Campelo foi o interrogador, como eu declarei diversas vezes. As marcas em meus pulsos foram causadas pelo roçar dos meus braços com o pau, afirmou Monteiro. Segundo o advogado Antonio de Pádua Barroso, que defendeu Monteiro no processo que tramitou na Justiça Militar em 70, ficou comprovada a prática de tortura no caso. A sentença concluiu pela absolvição do padre, em razão da precariedade das provas obtidas contra ele no processo, e acatou as denúncias de maus-tratos, pois na época era proibido falar em tortura, afirmou. O inquérito foi aberto após a prisão de Monteiro, em 3 de agosto de 1970, em Urbano Santos (MA), sob acusação de atentar contra a Lei de Segurança Nacional.
Para acusá-lo, Campelo baseou-se no depoimento prestado pelo ex-padre nas dependências da PF, onde teriam ocorrido as sessões de tortura. No depoimento, Monteiro teria confessado que era militante da Ação Popular (AP), uma organização de esquerda que atuou nos anos 60 e 70.





