- Luiz Geraldo Mazza
Opção satânica
É de todo compreensível que o governo estadual demonstre que não tem como pagar os R$ 260 milhões que deve aos professores por promoções e progressões e que sabe que ao final do ano passará de R$ 400 milhões. O que não pode é pretender obrigar a categoria a optar entre isso, e é claro parceladamente, a abrir mão do reajuste automático e cujo ritual não seguiu no ano passado e só o satisfez em janeiro deste ano.
Quem está inadimplente é o governo: se fosse indenização, atrasados, de outros poderes como o Judiciário e o Ministério Público, ele se comportaria de outro modo, tanto que tinha deliberado economizar cerca de R$ 400 milhões em repasses e recuou mostrando o quanto é vulnerável e seletivo. Não pode, portanto, ser levado a sério nessa proposta que é alternativa entre tomar veneno e ir para a forca.
Exatamente essa renúncia do governador ao papel de líder que permeia todo o processo como se viu na resistência do seu líder no legislativo, Luis Claudio Romanelli, a aplicar regras de austeridade necessária nos demais poderes, aos quais o secretário da Fazenda apontou e isso adequadamente- como "ilhas de prosperidade". Não há a menor consciência da gravidade da crise fiscal paranaense e essa sensibilidade deveria partir do Executivo para propor aos demais poderes uma partilha mais equilibrada nos sacrifícios. Ninguém abre mão de nada e os nossos professores, que ainda por cima se preocupam com o impeachment que tratam como golpe, é que não iriam aceitar padecimentos que outros não sofrem. E certamente farão um certo caldo de cultura em cima de possíveis mobilizações pró Dilma e contra Temer com essa parede de agosto lembrando o esmaecido ataque a bombas por Alvaro Dias em 1988 e sua expressão mais forte e robusta, a do massacre de 29 de abril.
Diálogo onerado
Percebe-se que as iniciativas legislativas visam um canal de negociação e que aos poucos a postura radical do governo se tornará mais branda com o parcelamento dos atrasados e pelo menos uma parte da reposição inflacionária em janeiro de 2017. É uma convocação para a indispensável conversa, mas haverá um consenso claro em relação a uma questão básica: não há dinheiro para o cumprimento das obrigações.
O cronograma favorece a APP-Sindicato que vai se valer não apenas do impeachment como também da circunstância da eleição municipal com o que poderá dar mais capilaridade aos seus intentos e aumentar a pressão sobre o Palácio Iguaçu. O pior é que na condição de devedor contumaz e relapso o governo entra baleado no conflito e sem condições de fazer os agrados da conveniência do professorado como sempre aconteceu.
De outro lado qualquer descuido oficial com gastos abusivos ou dispensáveis alimentará o poder de fogo dos mestres com a denúncia desses transbordamentos. O inferno astral do governador é mais do que visível e a ala dos gastadores entendeu que não há espaço para novas exibições de prodigalidade. Além de tudo o cenário nacional não é favorável pela ampliação da crise e a ausência de um mínimo de segurança de que a situação política se estabilize com o governo Michel Temer até aqui engolfado em contradições como a de dar aumentos excessivos a servidores em meio a uma recessão que não dá sinais de mudança no curto e médio prazos e ainda por cima acenando com uma pauta de benefícios sociais, já antecipada no reajuste do bolsa família.
Falsa opção
A opção entre Michel Temer e Dilma Rousseff, como decorre do cenário atual, não é aceitável como saída única, uma espécie de encruzo exclusivo para a salvação, pois a esmagadora maioria da população revela, nas pesquisas, indisfarçável rejeição aos dois. Essa ação marqueteira no sentido de fazer de Temer uma saída para a crise e também em favor da restauração nacional, o que assanha setores do empresariado e sobretudo de rentistas, não emplaca, não cola e tudo isso dá a impressão que o melhor seria o Supremo Tribunal Federal examinar aquilo que já está em sua pauta: a contaminação da dupla eleita, a presidente e o vice, pelo propinoduto da Petrobras, uma questão de economia processual, como argumentam os juristas, justificaria a sua precedência até em cima das ações de impedimento da presidente já afastada, apesar dos rituais e formalismos que a sustentam como legal e institucional.
Folclore
Quando do torneio de seleções estaduais, o Paraná perdia dos gaúchos e ganhava dos catarinenses. Num clássico de zero a zero com os gaúchos, o juiz Pereira Peixoto anulou um gol de Batista (ponta que foi do coxa, do Atlético e do Vasco). Não havia alambrado e o delegado (mais tarde desembargador pelo Ministério Público) Guilherme Albuquerque Maranhão entrou com o carro forte para garantir a saída do árbitro. A sede social do coxa estava em construção e eu vi, lá em cima, o Higino, goleiro do Palestra Itália, jogar uma rocha como aquela do Sísifo em cima do carro blindado e que o afundou.





