Zoneamento para um racional cultivo da cana
Mesmo ante o temor de certos empresários do setor sucroalcooleiro acerca de medidas oficiais restritivas - nesta fase de entusiasmo pela bioenergia - é prudente a decisão do Ministério da Agricultura de fazer um zoneamento para o plantio de cana. O Brasil ainda dispõe de muita terra para explorar, e áreas hoje produzindo alimentos não deveriam ser destinadas à produção de álcool e açúcar. Há uma corrida para os projetos da bioenergia, por causa das boas perspectivas de lucro, mas uma regulamentação será necessária, mesmo que provoque reações contrárias. Será preciso implantar um modelo exequível e sustentável, e isto deve ser feito agora.
Se a alternativa do álcool automotor é uma recomendação de melhoria ambiental, sabe-se que a queima da palhada na cana na colheita é um agente altamente poluidor. Além do zoneamento agroecológico, será preciso impedir essa prática. Ou será uma incoerência servir de um lado à causa ambiental e de outro aumentando o efeito estufa pela emissão de fumaça. O Norte do Paraná, rico em terras fertilíssimas, é cobiçado para o plantio de cana porque no Sul há risco de geada, prejudicial à produção. Anuncia-se que se dará preferência, nesta região, às áreas de pastagem semidegradada, mas se não houver controle a cana acabará tomando lugar da soja e de outras culturas alimentares. Há uma euforia no Brasil - que está à frente do mundo na produção alcooleira - mas também este país é um grande produtor de alimentos para consumo interno e para exportação.
Em Minas Gerais, por exemplo, a expansão do plantio de cana vem ocupando tanto áreas de pastagem como de produção de soja, e isto pode não ser o melhor para o Brasil. É sensato que se parta para a nova cultura em regiões onde as demais plantações são quase zero, como as semi-áridas, onde se cultivará cana com irrigação. São frentes agrícolas de exploração nova, mais recomendáveis do que as que estão em franca produção de soja, trigo e milho. Uma formação agrária inteligente se opera não apenas por via da doação de terras para quem não a possui - bandeira de luta do MST -, mas também pelo zoneamento sucroalcooleiro.
O Estado de São Paulo, que é o maior produtor nacional de cana e com gigante infra-estrutura instalada, está experimentando um crescimento de 12% no setor, e o Paraná segue essas pegadas, também expandindo as áreas de plantio, de maneira mais lenta mas já acenando com o salto acima dos 3 milhões de hectares cultivados com cana. É o segundo maior Estado canavieiro. Será preciso avaliar até onde é conveniente expandir esse espaço, sabendo-se que não há por aqui estoques de terra inculta, portanto onde a cana entrar sairão culturas tradicionais. Mesmo que provoque calafrios - termo usado por potenciais produtores de cana - a regulamentação é necessária.





